Ttulo: Anjo de Vingana.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1985.
Ttulo Original: From Hate To Love.
Gnero: romance.
Digitalizao: Fernando Jorge Alves Correia.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

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A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com
350 milhes de livros vendidos em todo o mundo!


Anjo de vingana
Conduzindo seu belo animal com firmeza, Julie o fez parar em
frente ao muro da Escola de Equitao.
Chegara a hora em que o arrogante duque de Sumac iria conhec-la!
Bastou um leve sinal para que o cavalo executasse o salto mortal. Num 
segundo, Ariel e sua dona aterrissavam no ptio interno da escola, 
surpreendendo o duque, que olhou encantado a singular apario surgida do 
cu, como uma deusa alada...
Ou um anjo de vingana!

Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Nova Cultural
Ttulo original:
"From Hate To Love"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1983
Traduo: Suzana Frana Pinto
Copyright para a lngua portuguesa: 1985 Abril S. A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.

CAPITULO I
1899

- Est atrasada! Se quiser comer alguma coisa, trate de preparar! No
estou aqui para servi-la. Tenho mais o que fazer!
- disse a sra. Mansur, saindo da cozinha e batendo a porta com estrondo.
Nataly suspirou, j esperando por aquela reao.
Seu primeiro impulso foi o de ir embora sem comer, mas o bom senso 
prevaleceu, alertando-a de que essa atitude no seria nada lgica. 
Afinal, estava em plena recuperao da ferida do ombro e precisava 
alimentar-se bem.
Por outro lado, numa instituio religiosa como aquela, em que todos os
dias pareciam ser de jejum, a comida era sempre escassa! Para piorar, a
sra. Mansur, a governanta do padre gnatius, uma mulher meio espanhola, 
meio rabe, se mostrava extremamente hostil.
Quando fora trazida quela Misso, em Tanger, Nataly estava 
inconsciente, e levou algum tempo at se recordar de quem era e de como
havia ido parar ali.
De imediato, todo o horror do repentino ataque dos ladres voltou-lhe  
mente, feito um pesadelo.
Depois de Nataly e o pai terem viajado por todo o norte da frica, sem 
nenhum incidente mais srio, era inacreditvel que aquela tragdia 
pudesse ter acontecido justamente quando Gordon Lindsay realizava sua 
ltima expedio.
No deserto, a caminho de Tangier, a comitiva estava muito reduzida, no 
s pela morte de dois camelos, mas tambm porque eles j no tinham mais 
dinheiro para pagar todos os criados.
Agora, Nataly estava s. O pai falecera sem lhe deixar um tosto, e ela 
precisaria trabalhar muito para conseguir dinheiro a fim de voltar  
Inglaterra, onde procuraria por algum parente que a abrigasse enquanto 
tentava arranjar um emprego.
Era muito esforo! Sentia-se extremamente fraca e no conseguia pensar no 
futuro com clareza.
Olhou em torno da cozinha baixa e pouco arejada. O que poderia comer?
Na semana anterior, quando finalmente havia se levantado da cama, 
percebera que a governanta, alm de demonstrar clara m vontade ao lhe 
servir as refeies, frequentemente queixava-se ao padre Ignatius do 
excesso de trabalho.
A sra. Mansur nutria pelo padre uma admirao que beirava a idolatria e 
era evidente o cime que sentia ao v-lo conversando com a recm-chegada.
Padre Ignatius, um senhor de cabelos brancos, extremamente simptico e 
bondoso, era o responsvel por aquela Misso, formada de devotos 
catlicos, treinados em medicina e primeiros socorros.
Suas vidas eram dedicadas  converso dos leigos e saam todos os dias 
para pregar a palavra de Deus s tribos rabes que, em sua grande 
maioria, no tinham o desejo de escut-los. E se, por isso, passavam
privaes ou morriam prematuramente,
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tinham a plena convico de serem recompensados com o paraso.
Entretanto, a velha governanta parecia no partilhar dessas ideias, e 
Nataly precisava partir. Decidiu que conversaria com padre Ignatius
naquela mesma noite, talvez durante o jantar.
Percorreu a cozinha com o olhar, procurando algo para comer. Estava 
faminta, pois na noite anterior, depois de muita reza e agradecimentos 
pelo alimento, tomara apenas um prato de sopa magra com duas fatias de 
po.
Abriu o armrio e encontrou um ovo que, estrategicamente colocado atrs 
de algumas xcaras, devia ter sido escondido pela sra. Mansur.
Ps o ovo para cozinhar, pegou uma cdea de po amanhecido e levou-a para 
tostar na chapa aquecida do fogo a lenha.
"O que eu queria mesmo era um bom pedao de frango grelhado, legumes 
frescos e batatas recm-colhidas. ", pensou, observando o prato vazio  
sua frente. Riu sozinha diante da ideia, que parecia absurda naquele 
ambiente severo.
J se sentindo um pouco melhor, concluiu que precisava urgentemente 
pensar no futuro.
Havia uma leve possibilidade de que os editores de seu pai lhe pagassem 
um adiantamento do ltimo manuscrito, enviado h um ms.
Pela graa de Deus, o manuscrito j no se encontrava mais em poder de 
Gordon Lindsay quando ocorrera o assalto no deserto. Os ladres, alm de 
terem lhe tirado o traje, haviam levado os cavalos, camelos, roupas, 
dinheiro e jias que possuam.
Nataly, uma das poucas sobreviventes, apesar de no ter sido tocada, fora 
ferida no ombro com uma adaga e ficara apenas com a roupa do corpo.
Entretanto, mesmo com o manuscrito salvo, a situao s estava resolvida 
em parte, pois, caso recebesse o adiantamento dos editores, o dinheiro 
no seria suficiente para a passagem de
volta  Inglaterra. Teria de contar com o apoio e compreenso do 
Consulado Britnico.
Mas a ideia no a animava. Pelo que padre Ignatius lhe dissera, eram 
muitos os ingleses que sofriam desgraas no norte da frica, e o 
Consulado s os ajudava em circunstncias muito especiais, e mediante a 
certeza de serem reembolsados em seguida.
Embora Gordon Lindsay gozasse de uma alta reputao entre os estudiosos, 
universitrios e cientistas, o mesmo no acontecia com os funcionrios do 
Consulado, que talvez nunca tivessem ouvido falar dele. Seria difcil 
Nataly convencer o cnsul-geral de que o pai era um grande pesquisador, 
que dedicara a vida ao estudo das tribos brbaras.
"Talvez, quando o livro fosse publicado, ele passasse a ser aclamado e 
reconhecido como nunca fora em vida", pensou, desolada.
Por outro lado, dada a especialidade do tema, tinha a vaga impresso de 
que poucas pessoas se interessariam a ponto de editar um livro que 
reunisse os artigos do pai, publicados pela Sociedade Geogrfica Real e 
pela Sociei ds Gographes.
"Terei de contar comigo mesma", concluiu, perguntando-se que 
qualificaes precisaria para ganhar algum dinheiro.
Sabia falar rabe e alguns dialetos africanos, o que de nada valeria ao 
voltar  Inglaterra.
Do fundo do corao, desconfiava que seria impossvel viver para sempre 
ali, no norte da frica. Era jovem e inexperiente demais para ficar 
sozinha e desamparada naquela parte esquecida e hostil do mundo.
Antes de morrer, sua me lhe dissera:
- Como seu pai e eu sempre imaginamos, voc ser muito bonita, querida. 
Mas ter de enfrentar muitas ameaas e pagar a pena de ser bela.
- No compreendo, mame.
A me sorrira, tocando-a de leve no rosto.
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- Os homens a amaro e a perseguiro, as mulheres, porm, a odiaro. S 
espero, minha filha, que encontre um homem que a faa to feliz quanto eu 
fui com seu pai.
- E voc foi mesmo feliz, mame, sem um lar fixo, sem razes em lugar 
nenhum, mudando-se sempre de um pas para outro?
O rosto da velha senhora havia se iluminado, radiante, perdendo a palidez 
provocada pela enfermidade.
- No acredito que alguma mulher tenha sido to feliz como eu! Tudo o que 
fiz com seu pai foi to excitante, to diferente, que mesmo nas situaes 
mais perigosas e desesperadoras, ns soubemos rir e encontrar juntos uma 
soluo.
Mais tarde, Nataly constatara que, realmente, aquilo era verdadeiro, pois 
aps a morte da me os risos pareceram no mais fazer parte da vida dele.
Por isso, tentara desesperadamente agrad-lo, preparando-lhe os pratos 
prediletos e procurando transformar as perigosas travessias pelo deserto 
em aventuras divertidas.
Era evidente que, apesar de am-la muito, o pai sentia a falta da esposa, 
e embora risse e brincasse no tinha mais a espontaneidade de outrora. 
Toda sua alegria fora encerrada num pequeno tmulo, perdido em alguma 
cidade rabe, uma lpide que logo seria esquecida no cemitrio.
Depois que seus pais se casaram, estiveram na Inglaterra uma ou duas 
vezes, e ali ela nascera. Tambm haviam voltado para l seis anos atrs, 
quando o seu av materno falecera. Assim, Nataly tivera oportunidade de 
conhecer diversos parentes dos quais mal se lembrava.
Na poca, embora contasse apenas doze anos, era precoce o suficiente para 
perceber que a maioria deles no aprovava a vida errante e precria de 
Gordon Lindsay e que, por extenso, tambm no gostavam dela. Afinal, 
estava sendo criada sob padres totalmente diferentes!
Era certo que, se aparecesse agora, pedindo casa e comida, no seria 
recebida com grande entusiasmo...
Os Lindsay viviam ao norte da Inglaterra prximo  Esccia, e Nataly 
sabia que o pai tinha um irmo bem mais velho, do qual no recebia 
notcias h muitos anos. Havia tambm uma irm, que se casara, mas ela 
no se lembrava do novo sobrenome da tia.
Tudo era extremamente vago, distante e confuso, porm no havia outra 
alternativa a no ser procur-los e pedir ajuda.
E onde encontraria dinheiro para isso?
Poucos dias antes da partida para Tangier, o pai retirara do banco suas 
ltimas libras esterlinas, pensando em fazer uma viagem mais confortvel.
- Quando chegarmos a Tangier - dissera ele - alugaremos uma casinha nos 
arredores da cidade e poderei escrever artigos para a Societ ds 
Gographes, que me rendero um bom dinheiro. Ento, veremos o que fazer 
em seguida, minha querida. - Acostumada s palavras da me, aconselhando-
a a viver "aqui e agora", contentara-se em aceitar o otimismo do pai, sem 
se preocupar.
Entretanto, ele j no estava ao seu lado e, pela primeira vez na vida, 
temeu a incerteza do futuro.
Imersa em pensamentos, assustou-se ao escutar a porta da frente batendo. 
Devia ser o padre Ignatius voltando da pregao.
Rapidamente, colocou o prato na pia, para lav-lo mais tarde, e dirigiu-
se  sala, pretendendo falar com ele antes que se retirasse para o 
quarto. O sol do meio-dia era extenuante para um homem de quase sessenta 
anos, e por isso o padre costumava fazer uma sesta quela hora.
Quando Nataly surgiu, ele sorriu bondosamente. Guardou o chapu clerical 
de abas largas e anunciou:
- Que bom que est a, criana! Quero conversar com voc. -. Tambm 
gostaria de falar com o senhor, padre.
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- Ento, vamos para o meu escritrio. L  mais fresco.
- Aceita algo para beber?
- Um copo d'gua seria suficiente. Obrigado!
Nataly encaminhou-se at a cozinha e, minutos depois, voltava com uma 
bandeja. O padre, acomodado numa cadeira gasta de bambu, agradeceu-lhe e 
convidou-a a se sentar, enquanto bebia a gua com prazer.
- O senhor est cansado agora.  melhor que descanse e, dentro de uma 
hora, poderemos conversar.
- Quem precisa descansar  voc, filha. Como est se sentindo?
- Melhor. A ferida do ombro j cicatrizou, embora ainda no esteja com 
bom aspecto. Mas, j que ningum pode v-la, no me incomodo - disse 
alegremente, tentando desanuviar as feies cansadas do velho padre, que 
parecia distante, retrado.
- Tenho uma proposta a lhe fazer, Nataly - anunciou ele, como se no a 
tivesse escutado -, embora no saiba se  a atitude certa para eu tomar.
Surpresa com o tom solene, hesitou um pouco antes de responder:
- Se  alguma coisa que possa me reverter algum dinheiro, padre, o senhor 
sabe que devemos consider-la. Os ladres levaram tudo o que papai 
possua, e ainda tenho de dar graas a Deus por o manuscrito j ter sido 
mandado  Inglaterra.
- Sim, deve agradecer a Deus por isso, filha. E deve agradecer tambm por 
ter lhe poupado a vida, que  o bem mais precioso do mundo.
- Concordo, padre. Ao mesmo tempo, como o senhor est ciente, agora sou 
obrigada a me manter sozinha. Preciso juntar dinheiro para ir  
Inglaterra e encontrar os parentes de papai, se  que ainda vivem.
Um silncio caiu na saleta. O velho pigarreou, passou a mo enrugada pela 
testa e continuou:
-  justamente sobre isso que desejo lhe falar. Deus, s
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vezes, nos oferece caminhos misteriosos... Hoje, recebi o chamado de um
mdico para visitar uma de suas pacientes, que est gravemente enferma.  
uma lady inglesa, que mora numa das belas villas perto da baa. A lady 
pediu-me para encontrar uma moa inglesa que levasse a filha, uma 
criana, de volta  Inglaterra.
Nataly, que estava recostada na cadeira de bambu, inclinou-se para a 
frente de imediato. Mal podia crer no que acabara de ouvir. Conseguia, 
afinal, vislumbrar uma esperana de solucionar seus problemas!
- A lady insistiu muito para que a pessoa que fosse conduzir sua filha 
fosse inglesa, e lembrei-me de voc. Isso lhe permitiria voltar para seu 
pas sem gastar um nico tosto,
-  exatamente o que desejo, padre Ignatius! Acho extraordinrio que o 
senhor tenha recebido esse pedido agora!
O padre no respondeu, baixando os olhos, como se alguma coisa o 
incomodasse.
- O que o preocupa, padre? Por que no est satisfeito?
- A lady em questo...  a condessa de Soisson, e foi honesta comigo, 
embora eu j soubesse de antemo o que iria me confessar. Ela no , na 
verdade, casada com o conde com quem mora.
Nataly prendeu a respirao. Tinha conhecimento de que muitas pessoas 
moravam em Tangier para ficar longe dos mexericos e da intensa vida 
social dos grandes centros urbanos. Assim, conseguiam viver com relativa 
tranquilidade, longe das crticas e condenaes.
- E essa criana que devo levar  Inglaterra,  inglesa ou francesa?
- Inglesa.
- Sinto-me apta a lev-la de volta para casa.
- Sabia que iria dizer isso, Nataly. Mas, ao mesmo tempo, no  correto
que voc entre em contato com uma mulher que, aos olhos de Deus, vive em 
pecado.
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- Essa lady  catlica?
- No, mas o conde de Soisson . Ele abandonou esposa e filhos em Paris - 
disse o padre com um certo tom de desprezo, deixando evidente sua posio 
de repdio quele comportamento.
No entanto, para Nataly, o que importava era o fato de que poderia voltar 
 Inglaterra e que l, entre gente que falava a mesma lngua, teria 
condies de conseguir um emprego adequado.
- Por favor, padre, o senhor deve compreender o que essa oportunidade 
significa para mim. No h outro modo de eu voltar ao meu pas, a no ser 
arranjando um emprego aqui em Tangier e esperar at conseguir dinheiro 
suficiente para a passagem. Por favor. Deixe-me ir conversar com a lady.
O padre Ignatius continuou pensativo, como se lutasse consigo mesmo.
- Tenho rezado muito, querida. Tenho rezado desde hoje cedo, para que 
Deus me ilumine com uma soluo... Voc  muito jovem para entrar em 
contato com esse lado da vida.
- Estou certa, padre, de que isso no me afetar. Estarei cuidando da
criana, e quando deixarmos Tangier ela estar livre da influncia da
me.
- Sim, Nataly... Agora que seus pais esto com Deus, e voc me foi 
entregue por mos caridosas, sinto-me responsvel por seu bem-estar, 
minha pequena. E, por isso, ainda tenho receios, apesar de estar 
consciente de que o destino assim nos oriente.
- Sim, padre, realmente, no podemos deixar essa oportunidade passar. 
Alm do mais, o senhor deve saber que viajei muito com papai, conheci 
muitos lugares e muitas tribos diferentes, e pude aprender vrias coisas, 
observando-lhes os costumes estranhos, a alimentao extica. No sou 
ignorante sobre a vida, como se tivesse sido educada em alguma aldeia no 
interior da Inglaterra.
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- Sim, no deixei de considerar isso tambm - disse ele, sorrindo. - A 
maioria dos ingleses ficaria simplesmente chocada se conhecesse os 
costumes de algumas tribos daqui.
- No acha que foi Deus quem o chamou para conversar com essa lady, 
padre?
O olhar do padre se iluminou momentaneamente, com uma expresso de 
alvio, e percebeu que havia ganho a batalha.
- V deitar-se, criana. Quando estiver mais fresco, eu a chamarei para 
irmos visitar a lady. A caminhada  longa, e no quero que se esforce 
demais.
- Oh, obrigada, muito obrigada, padre! O senhor no se arrepender por 
ter me mostrado esse caminho. Fico-lhe eternamente grata.
Padre Ignatius calou-se, pensativo, e ela saiu do escritrio em silncio, 
percebendo que ele rezava, pedindo a Deus que tivesse tomado a deciso 
certa.
Subiu para seu pequeno quarto, extremamente quente e abafado quela hora 
do dia, e deitou-se, olhando para o teto de madeira. Refletiu que, se o 
pai estivesse vivo, diria: "Viu? No falei que alguma soluo apareceria? 
"
A situao no estava de todo resolvida, porm o mais difcil ela j 
havia conseguido: a passagem de volta  Inglaterra. Para onde quer que 
levasse a criana, estaria em seu pas. De l, tomaria um trem at 
Baronswell, onde a famlia do pai se estabelecera.
Gordon Lindsay, sempre to envolvido em seu trabalho, pouco falava da 
infncia e da famlia. Atravs da me, Nataly soubera que o pai nascera 
de uma famlia abastada, muito respeitada na regio.
- Todos tinham ares de superioridade - contara-lhe a me.
- O irmo mais velho de Gordon foi o primeiro a se opor ao nosso 
casamento, alegando que no teramos dinheiro para viver decentemente.
- E no tinham mesmo, mame?
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Na verdade - dissera ela, rindo, os olhos doces e sonhadores - acho que 
estavam surpresos por eu ter aceito o pedido de casamento de seu pai. 
Minha famlia tambm ficou furiosa, pois esperava que eu fizesse negcio 
mais vantajoso.
- Isso porque voc era muito bonita, mame?
- Seu pai me achava bonita, isso era o mais importante. Meu pai, um nobre 
de famlia de poucas posses, queria ter tido um filho homem, o que no 
aconteceu. Por isso, ficou to desapontado com minha escolha.
- No gostava de papai?
- Como poderia deixar de gostar? Seu pai era muito espirituoso, 
agradvel. mas no tinha dinheiro, e estava determinado a vir para a 
frica. E eu, resolvida a acompanh-lo.
- E como seus pais reagiram?
- Se eu dissesse que estava de partida para a Lua, eles no ficariam to 
assustados! Falavam da frica como se ela no existisse no planeta...
- Mas voc gostou daqui.
- Sim, querida, amei cada minuto que vivi nessa terra com seu pai. Aos 
poucos, fui adquirindo interesse pelos estudos que ele fazia das tribos e 
de suas estranhas adaptaes ao entrarem em contato com o mundo dos 
brancos.
Sabia que a me referia-se aos sucessivos processos de aculturao 
sofridos pelos brbaros, conforme iam sendo conquistados pelos fencios, 
romanos, vndalos e, por ltimo, pelos rabes.
Quando o pai as levara para as Montanhas Rif, local de maior concentrao 
de brbaros, ela comeara a compreender o interesse de Gordon Lindsay. 
com o decorrer dos anos, Nataly havia aprendido muito sobre os povos do 
norte da frica, descobrindo aspectos mais fascinantes e complexos do que 
os constantes nos acadmicos livros de Histria.
Estudou a invaso dos rabes, que vinham com "a espada numa mo e, na 
outra, o Coro" e conheceu a histria dos mouros,
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cujos ancestrais tinham ocupado a Espanha, no af de espalhar pelo
mundo a f islmica.
Havia tanto a aprender e a admirar, que mal se dava conta de que viver 
naqueles desertos era extremamente extico para uma mocinha nascida na 
Inglaterra. Encarava sua vida com muita naturalidade, e os valores das 
sociedades das grandes cidades eram-lhe indiferentes.
"O que importa se a condessa de Soisson no  casada com o conde, e que 
ele tenha abandonado a esposa e as crianas?", pensou, imaginando como 
padre Ignatius ficaria horrorizado ante tal pergunta.
"Talvez seja errado, afinal. Mas papai jamais condenou ningum por suas 
atitudes, a no ser-que fossem atos de crueldade. E eu tambm acredito 
que cada um deve procurar o seu prprio caminho."
Seus olhos se encheram de lgrimas. Sentia muita falta dele e seria 
difcil encarar o futuro sozinha. Doente aquele tempo todo, ainda no 
sofrera diretamente o impacto da morte do pai. Agora, sentia-se mais s e 
abandonada do que nunca.
Mas era jovem, e a vida a convidava  luta. Precisava encarar os fatos e 
no se apoiar em sonhos, nem se desesperar!
Depois de terem passado pelas ruas lotadas e estreitas com suas casas de 
teto reto, Nataly e padre Ignatius subiram um dos morros atrs da cidade. 
No haviam caminhado muito, quando ele apontou para uma villa pintada de 
branco, circundada por um alto muro da mesma cor.
Avanaram mais um pouco, as sandlias levantando poeira do solo seco e 
arenoso. Dali se conseguia uma vista maravilhosa do mar e, mais abaixo, 
algumas cabras pastavam os pequenos arbustos floridos que cresciam entre 
as pedras.
O padre caminhava lentamente. com o rosrio na mo, rezava baixinho, sem 
olhar a paisagem em volta.
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Assim que se aproximaram, um imponente porto de ferro foi aberto por um 
criado fardado de branco e dourado. Padre Ignatius conversou com ele em 
rabe, enquanto Nataly observava o
local.
Em meio aos gramados bem-cuidados, havia algumas fontes cristalinas 
ladeadas de pedras e flores em profuso. Ciprestes esguios apontavam para 
o cu, em perfeita harmonia com a arquitetura oriental da villa.
Uma criada, tambm uniformizada, abriu a porta principal e os conduziu 
at uma sala espaosa e arejada, de onde se podia avistar a baa, com 
toda a sua beleza.
Ao lado das janelas amplas, havia vasos chineses com plantas exticas e 
muitos quadros nas paredes brancas. Os sofs e poltronas, revestidos de 
tecido, bem como as peas do mobilirio francs, eram de extremo bom 
gosto e conferiam um certo requinte ao ambiente.
Sentaram-se nas poltronas macias, em silncio, e aguardaram durante um 
longo tempo at que, por fim, uma empregada apareceu e disse algo em 
espanhol.
- Ela avisa que sua senhora est muito fraca - disse o padre, revelando
contrariedade - e que seria melhor voc subir sozinha. V, minha filha.
Nataly obedeceu e, enquanto subia a elegante escadaria de pedra, deu-se 
conta, pela primeira vez, de que no estava vestida adequadamente para a 
ocasio. O que a lady pensaria a seu respeito?
Afinal, fora obrigada a usar os trajes da Misso, todos grosseiros, 
largos e desajeitados. Improvisara um cinto de lenos, que melhorava um 
pouco o aspecto do vestido, o que no garantia que a me da criana a 
aceitasse para a viagem. Era provvel que procurasse por outra pessoa com 
melhor aparncia.
A empregada, chegando ao topo da escadaria, abriu uma porta dupla e a 
moa entrou num quarto que parecia sado de um livro de contos de fadas.
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Uma grande janela, em forma de arco, dava vista para o jardim e a 
imensido do mar. Venezianas protegiam o ambiente do sol causticante e, 
dominando quase todo o espao, havia uma cama imensa, com dossel de 
cortinado branco e dourado, preso ao teto por anjos de madeira suspensos.
Na cama, encostada em travesseiros forrados de seda e rendas, estava uma 
moa lindssima, de tez alva, cabelos dourados, feies clssicas. 
Plida, com marcas de cansao pelo rosto, era evidente que sofria de uma 
doena grave.
Quando a empregada se aproximou, ela abriu os olhos, de um azul intenso, 
que contrastava com sua pele clara.
"Parece uma flor extica e rara", pensou Nataly.
- A mocinha est aqui para v-la, senhora.
- Sim, sim, claro - falou a lady num sussurro.
A empregada pegou uma cadeira e colocou-a bem prxima do leito, 
oferecendo-a a Nataly, e retirou-se discretamente. Depois de algum tempo, 
a enferma perguntou:
- Voc  a moa inglesa de quem padre Ignatius me falou?
- Sim.
- O reverendo me contou que seu pai, o famoso escritor Gordon Lindsay, 
faleceu e que voc est querendo voltar  Inglaterra.
- .  verdade!
- E ser capaz de levar minha filha consigo? Quero mand-la de volta para 
o seu pai.
- Pai? - repetiu Nataly, mal escondendo a surpresa.
- Sim, -para o pai. Felicity deve ficar com ele. Meu,.. o conde no a quer
aqui.
- Oh. Quantos anos tem a menina?
- Oito. Faz trs anos que est comigo, mas agora deve voltar para seu
lar.
- Para onde devo lev-la?
A mulher fez uma pausa de alguns segundos, fechando os olhos, como se as
lembranas a torturassem.
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Para o Castelo Roth. O pai da criana  o conde de
Rothwell, e Felicity deve ficar com ele. - Apertou os lbios, uma imensa 
tristeza nos olhos azuis. - vou sentir muito a falta dela, mais do que 
algum possa imaginar! Mas no estou passando bem e, se eu morrer, o 
conde  capaz de no deix-la voltar.
Nataly manteve silncio, sentindo-se um pouco constrangida. A mulher 
continuou, com voz rouca:
- Voc dever fazer com que Felicity compreenda que deve morar na 
Inglaterra. No ser fcil para ela se adaptar  vida do castelo, e voc 
precisa ajud-la. Prometa-me que far isso.
- Claro que sim. Farei tudo o que estiver ao meu alcance.
- Sei que ser difcil para minha pobre filha, mas no tenho outra
alternativa. Sem dvida, ela ser perdoada e aceita, enquanto que eu
estarei para sempre amaldioada! Escute-me: voc deve lev-la embora
imediatamente, antes que o conde retorne. Talvez ele no a deixasse
partir, e tudo ficaria ainda mais complicado.
Nataly arregalou os olhos, apreensiva, mas preferiu no fazer perguntas. 
Sua intuio a aconselhava a apenas receber as ordens e execut-las.
- . - Dar-lhe-ei algum dinheiro para as despesas da viagem.
- Obrigada. Como o padre Ignatius deve ter lhe dito, papai foi morto no 
deserto por assaltantes que, literalmente, roubaram tudo o que 
possuamos. Portanto, se vou viajar com sua filha, preciso tambm comprar 
roupas.
- Roupas? Mas isso levar muito tempo. Quero que a leve o mais rpido 
possvel, amanh mesmo!
- Tenho certeza de que encontrarei alguma coisa no mercado e...
- No, isso  ridculo! Tenho roupas, montanhas de roupas, e voc  to 
magra quanto eu. Devemos ter o mesmo corpo, e lhe darei algumas disse a
mulher, balanando freneticamente um sino dourado.
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A criada espanhola entrou segundos depois, como se estivesse do outro 
lado da porta.
- Escute, Mara. Tenho um ba que nunca foi aberto, com roupas que no so 
prprias para este clima quente. Leve-o para baixo, coloque-o numa 
carruagem e prepare mais outro ba cheio, escolha boas roupas, entendido? 
Aquelas que chegaram de Paris na semana passada, tambm. Est 
compreendendo?
- Sim, senhora.
- Ento, apresse-se! A carruagem deve partir amanh cedo. Ou melhor, 
mande-a para a Misso ainda esta noite.
- Devo incluir chapus e outros acessrios tambm?
- Empacote tudo. Esta moa foi roubada numa travessia pelo deserto; deve 
ser vestida dos ps  cabea. Entendido?
- Sim, senhora.
- Tenho roupas em excesso,  uma tima oportunidade para me livrar de uma 
parte. Chame as outras criadas para ajud-la. No h tempo a perder!
- Mas... - interveio Nataly, assustada. - Est me oferecendo muita coisa! 
No posso aceitar tanto.
- No seja tola. Tenho uma infinidade de roupas e voc precisa delas! No 
h tempo para comprar nada. Alis,  melhor que Felicity v com voc 
agora mesmo. Sim,  a melhor soluo.
Tocou de novo o sino, nervosa, e, quando a empregada voltou, ordenou:
- V buscar lady Felicity! Diga que quero v-la imediatamente. As roupas 
dela devem ser empacotadas tambm, todas, entendeu? Empacote tudo! Os 
brinquedos, bonecas, tudo o que ela tiver!
Depois que a criada saiu, a mulher passou a mo pela testa, como se 
quisesse colocar os pensamentos em ordem. Pegou uma chave da caixinha que 
havia no criado-mudo e entregou-a a Nataly.
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- Preciso lhe dar dinheiro! Ali, atrs daquele quadro, h um armarinho. 
Dentro dele, na primeira prateleira, est um pacote. Traga-o para mim.
- Pois no.
- Vejamos. Posso lhe entregar trezentas libras, no tenho guardado mais 
do que isso. Creio que ser suficiente para a viagem. O que sobrar  seu.
- Mas  dinheiro demais!
- Confio em voc, sei que  honesta. Alm do mais, minha filha deve 
viajar sempre em cabine de primeira classe nos navios, e em carruagens 
luxuosas quando necessrio. O trem as levar at perto do Castelo Roth, 
em Yorkshire. L precisaro alugar uma carruagem para os ltimos trs 
quilmetros. Sei que far o melhor possvel.
- Tudo conforme suas ordens - disse Nataly, pegando dois envelopes 
marrons pesados e mais alguns maos de notas que a mulher lhe estendia.
- Oh, claro, voc no tem bolsa! Na primeira gaveta daquela penteadeira 
h uma, nova. Pegue-a para a viagem.
Ficou surpresa ao ver a bolsa de couro, finssima, delicada, um acessrio 
to sofisticado e elegante como nunca tivera. Tudo aquilo lhe parecia to 
irreal!
Guardou o dinheiro na bolsa e, quando tinha acabado de trancar o 
armarinho e reposto a chave na caixa, a porta se abriu e, sem ser 
anunciada, uma garotinha entrou correndo.
Logo  primeira vista, constatou que a menina no se parecia com a me, 
exceto pelos olhos azuis. Era morena, de cabelos encaracolados e fartos, 
e com uma compleio de corpo bem mais slida.
Correu para a cama, esvoaando a musselina branca do vestido carssimo, 
deixando  mostra os joelhinhos nus, as meias alvas e o sapato preto 
abotoado.
- Mame, mame! Est melhor? Venha brincar no jardim comigo.
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- No posso, meu amor. Escute, Felicity, preciso lhe dizer uma coisa.
- Tenho muito para lhe contar, mame. Andei no meu pnei hoje, galopei 
bem rpido!
- Sente aqui do meu lado, princesinha, e escute direitinho o que vou lhe 
dizer - disse a lady, segurando a mo da filha. Voc vai para a 
Inglaterra!
- Inglaterra?
- Sim, querida, para a casa de seu pai.
- No quero ir com papai. Quero ficar aqui com voc. A Inglaterra  fria 
e chuvosa. Mon pre diz que no  um lugar bonito e que detesta os 
ingleses. Ele acha uma pena que eu no seja francesa!
- Voc  inglesa, Felicity, e quero que v. Assim, poder decidir se 
gosta de l ou no. Esta moa boazinha vai levla na viagem. Imagine como 
ser excitante viajar num navio grande e depois no trem!
A menina inclinou a cabea para o lado, considerando a ideia.
- Posso levar meu pnei?
- No, querida, mas o papai tem dzias de cavalos, tenho certeza de que 
lhe dar um pnei assim que voc chegar.
- Adoro o pnei que tenho aqui, e mon pre acha que a Inglaterra  feia!
Antes de ele ir embora, disse que estava bravo comigo porque eu me 
comportava como uma inglesinha!
A lady lanou um olhar a Nataly na expectativa de que compreendesse, sem 
explicaes verbais, o modo de o conde sentirse em relao  criana.
Era evidente que, para ele, conviver com a filha da mulher, que instalara 
naquela casa como amante, era um fardo. Alm do mais, o conde tambm 
tinha filhos. Na certa, sentia falta deles e se irritava com o fato de 
ter em casa a criana de um ingls a quem desprezava.
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- Agora, Felicity, minha querida, quero que v para seu quarto e escolha 
os brinquedos que levar para a Inglaterra: bonecas, jogos, o ursinho de
pelcia.
A criana pareceu animar-se um pouco, e a me apertou-lhe a mozinha 
delicada, continuando:
- Ajude as empregadas a guardarem tudo direitinho nas malas, para que 
nada se quebre na viagem! Depois, tenho certeza de que todas as bonecas 
adoraro ficar no castelo onde seu pai mora. Vamos, rpido, antes que os 
brinquedos fiquem para trs.
Felicity, embora ainda parecesse um pouco hesitante, soltou um gritinho e 
saiu correndo, encantada.
-  uma criana muito viva - disse Nataly, dirigindo-se  lady. - Sentir 
muitas saudades.
- A ideia de v-la longe me deixa terrivelmente angustiada, mas sei que 
no me resta outra coisa a fazer. O conde no consegue gostar dela, e 
nosso relacionamento fica prejudicado. Alm de tudo, isso no  vida para 
minha filha. Ela deve voltar para o pai e ocupar seu lugar na sociedade.
- Ainda h tempo pela frente.
- Felicity est comeando a notar as coisas. Ontem mesmo, perguntou-me 
por que tinha dois pais: o pai, de quem mal se lembra, e mon per e, com 
quem mora. Como devo responder?
- Posso estar sendo indiscreta mas... se a senhora  casada com o conde 
de Rothwell, ento,  a condessa de Rothwell!
- Sim, sou. Mas, para deixar o conde de Soisson feliz e abafar os 
mexericos, me apresento como confesse de Soisson, e  assim que desejo 
ser conhecida por aqui.  uma pena que no possa conhec-lo,  um homem 
maravilhoso, na verdade, mas. a cada dia que passa, vejo que gosta menos
de minha filha. Seria um erro mant-la aqui em Tangier conosco, ainda
mais se... se eu morrer.
Levarei Felicity para a Inglaterra - prometeu Nataly com solenidade. - L
 o seu lar.
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- Obrigada. - A lady olhou-a com ateno, examinando-a dos ps  cabea. 
- Voc  muito bonita e, quando estiver bem vestida, ficar ainda mais. 
Deixe-me lhe pedir uma coisa: no escute seu corao. Se o fizer,  capaz 
de, como eu, cometer uma loucura. Lembre-se, se jogar seu chapu para o 
vento uma vez, no h mais caminho de volta!
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CAPITULO II
A condessa de Soisson ainda deu mais algumas ordens s criadas e Nataly, 
depois de razoavelmente esclarecida sobre o que deveria fazer, disse:
- Creio que  melhor eu descer e informar ao padre Ignatius que partirei 
amanh e que lady Felicity passar esta noite comigo na Misso.
- Sim, claro. Enquanto isso, verei se h coisas das quais voc precisar.
- Obrigada.
Desceu rapidamente a escadaria curva, encontrando o padre na mesma 
poltrona em que o deixara meia hora antes.
Parecia ter sido muito bem tratado nesse nterim, pois,  sua frente, 
havia uma bandeja com o tradicional ch de menta e os docinhos tpicos, a 
maioria de amndoas e mel, e pedaos de bolo de coco.
Assim que Nataly sentou-se, a criada lhe trouxe uma xcara de ch e o 
padre lhe ofereceu o pratinho de doces. Lembramdo-se
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da precria refeio que havia preparado na Misso, aceitou tudo de
bom grado.
- H muitas coisas para lhe dizer, padre. Nem sei por onde comear!
- Imagino que a condessa tenha lhe pedido para partir o mais rpido 
possvel e que deseja arrumar tudo antes que o conde de Soisson retorne.
- Isso mesmo. E ela quer tambm que levemos lady Felicity conosco para a 
Misso, hoje.
- Compreendo.
- Alm disso, foi muito gentil e me ofereceu parte de seu guarda-roupa 
para a viagem. Expliquei-lhe que todas as minhas coisas tinham sido 
roubadas no deserto.
- Foi muito generoso da parte dela, pois facilitou bastante a sua 
situao. Eu havia reparado que, com as roupas da Misso, voc no 
poderia fazer essa viagem, nem apresentar-se no castelo, depois.
Nataly o encarou, surpresa.
Padre Ignatius conhecia bastante a natureza humana, tanto no plano 
espiritual, como no material!
- Estava pensando... - disse, enquanto recolocava o pratinho vazio na 
bandeja. - As criadas esto guardando as roupas em alguns bas, mas 
depois no terei tempo de desarrumlos e escolher algumas peas para a 
viagem.  melhor eu pedir a elas que separem o que for necessrio numa 
mala menor, no acha?
- Sim, me parece sensato.
- com licena, ento, padre.
Subiu a escadaria novamente,  procura de Mara. Escutou vozes no corredor 
e, duas portas adiante do quarto da condessa, encontrou a servente 
espanhola e mais trs empregadas, tirando roupas de vrios armrios 
embutidos e guardando-as em grandes bas de couro.
- Deseja alguma coisa, senhorita?
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- Sim - disse, depois de um momento de hesitao, sem poder crer que tudo 
aquilo fosse s para ela. - Ser que voc faria o favor de separar numa 
maleta algumas roupas para eu usar na viagem? Assim, no precisarei abrir 
os bas esta noite.
- Claro. No sei como no pensei nisso antes! - virou-se para as outras 
mocinhas, deu-lhes ordens em espanhol, e voltou-se para Nataly. - No se 
preocupe, senhorita, j est sendo providenciado. No precisar usar 
nenhuma pea dos bas at chegar ao seu destino.
- Muito obrigada.  muita gentileza de sua parte.
- Ora, imagine, senhorita! S cumpro minha obrigao.
- Mesmo assim, fico agradecida. Virou-se para sair, mas a criada a 
deteve:
- Espere, senhorita, espere! H um problema com os sapatos. Experimente 
um par da senhora para ver se servem.
Ela estalou os dedos e uma das criadas tirou do guarda-roupa um par de 
sapatos de pelica muito elegantes. Maravilhada, Nataly tirou as sandlias 
de couro grosseiro que a Misso lhe arranjara e calou-os. Pareciam um 
pouquinho apertados, mas o dia estava bastante quente e, alm disso, 
ultimamente, s usara aquelas sandlias folgadas.
- Tudo deu certo! - disse Mara, erguendo os braos com alegria - Temia 
que a senhorita tivesse que viajar muito elegante, mas descala, pois 
minha patroa tem ps muito pequeninos.
- Ficaram timos. Mais uma vez, obrigada por sua ateno. Apressou-se em 
descer e foi sentar-se na sala com o padre.
- Estive pensando... - disse ele, muito srio. - Se a condessa deseja que 
partam amanh, tero de pegar o navio para Gibraltar. Ele sai bem cedo e 
a travessia dura quatro horas.
- Ela insiste em que sua filha tenha sempre cabine de primeira classe em 
todas as viagens.
- vou ver o que posso arranjar para amanh.
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- Espero que tenha lhe dado dinheiro suficiente para tais extravagncias.
- Foi bastante generosa.
- A primeira classe  muito cara. E, sem dvida, tero de ficar em 
Londres antes de pegar um trem para o norte.
- Sim, e isso me preocupa um pouco. Na ltima vez em que estive l, com 
papai e mame, ficamos numa casa. No sei de nenhum hotel para onde possa 
levar lady Felicity.
- Deixe que eu cuido disso. Conheo um agente de viagens, aqui em 
Tangier, que poder me fornecer todas as informaes necessrias.
Nataly deu um suspiro de alvio.
- Viajei tanto com papai, que no deveria temer nada, no , padre? Mas, 
sem dvida, estou mais acostumada a camelos e jangadas do que a trens e 
navios a vapor!
- Isso  verdade, filha - disse o padre, rindo com vontade -, mas voc  
uma garota sensata e logo se adaptar s diferenas.
- Espero que sim - disse ela, lembrando que as caravanas eram sempre 
organizadas por seu pai, e que, quando no dormiam em tendas, hospedavam-
se em hotis precrios.
A cena de despedida entre me e filha foi comovente. A condessa beijara a 
menina repetidas vezes, sem esconder as lgrimas. Por isso, a pequena 
tambm comeara a chorar.
- Adeus, minha querida, por favor, prometa que no se esquecer de mim - 
implorou a me.
Apesar de ter o rosto manchado de lgrimas e uma imensa tristeza 
estampada em suas feies, a lady continuava belssima. Entretanto, 
quando finalmente se retirava do quarto com Felicity pela mo, Nataly 
deteve-se  porta, assustada com a sbita palidez da moa.
Os olhos fechados, lvida, o corpo inerte contra o travesseiro, dava a 
impresso de estar prestes a sofrer um colapso.
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No... n... no quero... ir embora - chorava a criana Quero ficar. com a 
m. mame. quero ficar com
meu pnei.
Voc vai ter um pnei lindo na Inglaterra - prometeu
Nataly. - Lembre-se, amanh ns pegaremos um navio bem grande, l no mar! 
Ser tudo muito divertido!
Aquelas palavras de pouco adiantaram, pois, durante todo o trajeto entre 
a villa e a Misso, Felicity continuou chorando e queixando-se de ter que 
ir embora dali.
Nataly podia prever que ainda teria outros problemas pela frente, e que o 
mais imediato seria a contrariedade da sra. Mansur, ao saber que 
acomodaria mais uma hspede na casa.
Para sua surpresa, no entanto, a velha governanta ficou to contente ao 
saber que a moa iria embora no dia seguinte, que correu para arrumar a 
cama da menina, solcita, e,  noite, apresentou a refeio mais gostosa 
que ela j comera ali.
At depois do jantar, a bagagem ainda no havia chegado, e Nataly j se 
preparava para vestir Felicity com uma camisola grosseira da Misso, 
quando bateram  porta. A sra. Mansur foi abri-la e, da mesa, eles a 
ouviram soltar um grito histrico.
- Acho que as malas chegaram, filha - disse padre Ignatius com um 
sorriso. Leve a criana para cima enquanto cuido disso.
Enquanto subia a escada estreita com a criana, ela pde ver os criados 
da condessa descarregando volumes atrs de volumes no minsculo hall de 
entrada. Teria uma grande responsabilidade durante a viagem!
Sua impresso foi confirmada na manh seguinte, quando teve a noo exata 
da quantidade de bagagem que teriam de transportar at a Inglaterra. 
Havia uma srie de bas de couro, de malas e de caixas dos mais variados 
tamanhos, que lotavam todo o hall e invadiam a saleta onde o padre 
Ignatius recebia seus fiis.
Procurou pela mala menor, onde estariam suas roupas de viagem
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e, depois de algum tempo, divisou um ba menor que os outros, com
fechos de arabescos, e que parecia ser muito pesado.
Refletia sobre como conseguir lev-lo at o quarto quando um dos jovens 
aspirantes a padre da Misso saiu do escritrio.
O novio era um moo esforado, diligente, de nacionalidade francesa, e 
que evitava Nataly como o demnio foge da cruz. Na certa, a considerava 
uma tentao perigosa.
Antes que o jovem pudesse escapulir pela porta da frente, ela o 
interceptou:
- Ser que me faria o grande favor de carregar este ba at l em cima?  
pesado demais para eu levar sozinha, e no gostaria de incomodar o padre 
Ignatius a essa hora.
- Pois no, pois no - respondeu o aspirante, erguendo o ba sem 
dificuldade e subindo as escadas quase correndo, como se fugisse de 
alguma coisa.
Nataly pegou uma das caixas de chapu, onde havia um selo dizendo: "para 
a viagem", e subiu tambm. No quarto, o novio j depositara o ba no 
cho e saa, de cabea baixa, muito vermelho. Ela quase no teve tempo de 
agradecer, pois, quando se deu conta, ele j havia descido a escada e 
alcanado a porta da frente.
- Ei, obrigada, obrigada!
O moo murmurou uma resposta entre dentes e saiu batendo a porta atrs de 
si. Ela no pde deixar de rir, deliciada, quase no acreditando que, 
vestida com aquele horrvel camisolo cinzento de algodo, pudesse ser 
uma tentao para algum!
Foi abrir o ba, ansiosa para ver as roupas que lhe tinham sido 
destinadas para a viagem, e cinco minutos depois mirava-se no espelho, 
extasiada.
O vestido da condessa lhe caa maravilhosamente bem, como se tivesse sido 
feito sob medida para ela. Confeccionado em Paris, de seda azul, tinha 
uma jaqueta at a cintura e uma capa do mesmo tecido, bordeada com
arminho do pescoo at o cho. Jamais usara algo to bonito e elegante!
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"Como ela teve coragem de me dar coisas to caras?", perguntou a si 
mesma, enquanto via, no ba, outros vestidos to ou mais elegantes que 
aquele, alm de roupas de baixo, de seda, rendadas, bordadas com fios e 
laos.
Havia tambm camisolas transparentes, robes com arminho, bordados com 
ouro nos punhos e na gola, negligs parisienses, chinelinhos combinando;
coisas que jamais sonhara possuir!
A mala de viagem de Felicity tinha sido trazida para cima na noite 
anterior pelo padre Ignatius, e Nataly encontrara uma camisolinha com 
robe logo em cima das demais roupas de dormir. Havia tambm um casaco 
combinando com o vestido que a garota usaria na viagem.
Lembrou-se da caixa de chapu, abriu-a e encontrou uma pea muito 
delicada, forrada com o mesmo tecido azul do vestido, entremeada com 
musselina. Lamentou-se por no saber coloc-la.
Num mpeto, foi at a penteadeira e comeou a escovar os cabelos com 
determinao. Lembrando-se de que j vira a me e outras mulheres usando 
chapus daquele tipo, resolveu pentear-se de maneira semelhante.
Depois de algumas tentativas frustradas, finalmente conseguiu prender os 
cabelos num coque mais alto e elegante do que o de costume, e ajeitou a 
pea com todo cuidado.
Talvez o penteado j estivesse fora de moda para as europeias, mas ficou 
fascinada com o resultado, virando-se em frente ao espelho. Sentia-se uma 
estranha, uma mulher que, com certeza, merecia ser chamada de "lady".
De sbito, lembrou-se de que j estava ficando tarde. Tinha de correr 
para acordar Felicity, se no eram capazes de perder o navio!
Quando rodavam pelas ruas amontoadas de gente, em duas carruagens 
alugadas, todos paravam para olh-las, pois ali, em Tangier, poucos 
dispunham de veculos daquele tipo.
Repentinamente, Nataly sentiu um grande aperto no corao.
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Afinal, estava partindo de uma terra conhecida e muito amada, e na qual 
passara anos felizes de sua vida.
"O que sei sobre a Inglaterra?", perguntou-se, observando pela janela as 
ruas ainda cinzentas pela pouca luz da manh.
Estava familiarizada com os desertos, com as cidades exticas e com as 
estranhas tribos de Marrocos. Seria praticamente uma estrangeira na 
Inglaterra.
"Sou uma nmade, uma andarilha sem razes", pensou, com um pouco de 
amargura.
Uma sombra de dvida atormentou-a por um momento, mas, logo depois, 
percebeu que ali no existia vida para ela. Sem o pai, vivendo s, seria 
hostilizada naquela terra de valores to diferentes. Em seu pas de 
origem, poderia se empregar e ganhar algum dinheiro para sobreviver.
Sentia-se envergonhada por estar to pessimista, quando deveria agradecer 
a Deus por ter-lhe aparecido aquela maravilhosa oportunidade. Estendeu as 
mos para o padre Ignatius.
- Quero agradecer-lhe, padre, por sua bondade. O senhor no s cuidou de 
meu ferimento e me hospedou na Misso durante toda a convalescena, como 
tambm encontrou um modo muito confortvel de eu voltar  Inglaterra!
- Deus respondeu s minhas preces, filha. Eu sabia que, aqui, voc no 
teria oportunidade de se colocar na vida. Mesmo que tudo lhe parea 
difcil a princpio, tenha f e seja feliz.
- Seguirei seus conselhos, padre.
Finalmente chegaram ao cais, onde uma multido subia e descia apressada 
do navio, carregando pacotes, despedindo-se, ou apenas observando o 
movimento. Foi com alvio que Nataly constatou que o agente de viagens, 
amigo do padre Ignatius, realmente reservara uma cabine privada para 
elas, pois a embarcao se encontrava superlotada.
Ele tambm obtivera bilhetes de primeira classe para o trem que as 
transportaria de Gibraltar para Madri, e de Madri para Calais.
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Tero de fazer uma baldeao em Madri. Quando chegarem, ser melhor 
informarem-se na bilheteria sobre o caminho mais rpido para a
Inglaterra. Talvez seja mais fcil sair de L Havre, em vez de Calais.
- Muito obrigada, farei isso - disse Nataly, desejando secretamente que
tudo transcorresse com a mesma facilidade com que aquele senhor lhe
explicara.
Logo depois, considerou que estava receosa  toa. Se fora capaz de viajar 
com o pai, durante dias e noites no deserto, sem se perderem, no havia 
motivo de preocupao numa viagem Tangier - Inglaterra!
Entretanto, foi doloroso despedir-se de padre Ignatius, pois via nele seu 
ltimo elo de ligao com a vida que levara at ento. Dali para a 
frente, o desconhecido a aguardava, como se estivesse partindo para uma
expedio sem conhecer seu destino e sem guia.
- Deus a abenoe, filha. Se estiver em dificuldades, reze, que Deus vir 
ajud-la.
O velho religioso desceu para a terra e, do cais, ficou acenando at o 
navio apitar e distanciar-se lentamente.
Felicity queria correr pelo deck mas, como houvesse gente demais ali, 
Nataly persuadiu-a a entrar na cabine.
- Temos uma casinha s nossa, querida, vamos nos sentar l e conversar. 
Se voc quiser comer ou beber alguma coisa, chamamos um garom e ele nos 
trar tudo!
J na cabine, contou  criana uma histria de quando ficara com o pai 
numa pequena embarcao rabe, a vela, no meio de um lago sem vento, e de 
como haviam conseguido voltar  margem depois de vrias tentativas.
A menina ouvia tudo com olhos muito atentos e, terminada a narrativa, 
pediu que lhe contasse outra histria. Nataly logo descobriu que a jovem 
lady tinha um apetite insacivel para ouvir narrativas, o que a ajudou a
mant-la na cabine durante todo o trajeto.
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A viagem de trem at a Espanha foi bastante agradvel, j que, naquele 
pas, havia muitas frutas e paisagens interessantes para se ver da 
janela. Em cada parada, podiam comprar comidas diferentes para 
experimentar.
Mais tarde, ao cruzarem a fronteira com a Frana, descobriram os mais 
deliciosos doces e tortas que j tinham provado. Felicity demonstrava ser 
uma grande companheira, pois era esperta e bastante observadora para sua 
pouca idade.
- Mon pre vai ficar surpreso quando voltar para casa e no me encontrar.
- Oh, sem dvida.
- Tambm ficar contente. Ele no gostava de mim. Por que mon pre no 
simpatizava comigo?
- Est enganada, querida. Ele a ama muito, mas s vezes, quando voc faz 
alguma coisa errada, por exemplo, a reprova.
Felicity balanou a cabea, no convencida.
- No, ele no gostava de mim - repetiu, enftica. - Mara me contou que  
porque ele odeia papai.
- No  bem assim, querida.
- Tenho dois pais, sabia? A maioria das meninas tem um s, mas eu tenho 
dois.
- Ento, voc tem sorte. Meu pai morreu, por isso, no tenho nenhum.
- De que ele morreu?
Nataly lhe contou a histria do assalto no deserto, e a criana a ouvia 
de olhos arregalados, fascinada.
- E eles tentaram matar voc tambm?
- Sim. Pensaram que eu estivesse morta, mas Deus me manteve com vida. 
Talvez para que eu a levasse de volta  Inglaterra, quem sabe?
- Que jeito engraado de escolher uma governanta! - disse a menina, 
depois de ter ponderado um pouco sobre o assunto.
- Mame disse que voc era minha governanta agora, e que ia me ensinar 
muitas coisas sobre a Inglaterra.
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 o que espero fazer, s que faz muito tempo que no vou
para l. Acho que  voc quem vai me ensinar! Felicity riu.
- Est bem, vou lhe contar muitas coisas sobre o meu pas. Mas  seu pas 
tambm, no ?
- , sim.
Quando chegaram a Calais, Nataly sentia-se to exausta, como se tivesse 
viajado durante semanas. Em Madri, haviam esperado quase oito horas pelo 
trem, e dormido muito mal na sala de espera da estao.
Da estao at o porto, alugaram uma carruagem de luxo e, devido  
quantidade de bagagem e s roupas elegantes que usavam, eram sempre muito 
bem tratadas. A cada parada, surgiam transportadores solcitos e bem-
educados, a quem se oferecia polpudas gorjetas.
A travessia do canal transcorreu rpida e sem incidentes.
"Sem dvida, um navio  bem mais macio que a corcova de um camelo", 
pensou Nataly, sorrindo.
Chegando  Inglaterra, pegaram um trem at Londres, onde deveriam mudar 
de estao para pegar outro at o norte do pas.
Como se sentisse exausta e Felicity reclamasse de sono, resolveu passar a 
noite em algum hotel confortvel. No dia seguinte, estariam bem 
descansadas para enfrentar a longa viagem at o Castelo Roth.
A conselho do Chefe da estao, um senhor de cartola lustrosa e bigodes 
brancos, hospedaram-se no Brown's Hotel, na rua Dover. Entretanto, pela 
manh, Nataly ficou horrorizada com a conta que recebeu. Nunca imaginara 
que as coisas fossem to caras em Londres!
Aquelas cabines de primeira classe, as carruagens de luxo e as gorjetas 
estavam praticamente devorando o dinheiro que recebera da condessa. Ainda 
lhe restava o suficiente para chegar ao Castelo Roth, mas, e depois?
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"Depois, alguma coisa aparece", disse a si mesma, recordando as palavras 
do pai, que tanta falta lhe fazia.
De alguma forma essa lembrana deixou-a mais confortada, permitindo-lhe 
saborear com apetite o farto caf da manh do hotel.
J no interior do trem, aps pagar a carruagem e os carregadores, 
constatou que, depois que deixasse Felicity no Castelo praticamente no 
lhe sobraria nada para seguir at onde moravam os parentes do pai. Como 
iria se arranjar?
- Estou cansada de viajar - queixou-se a criana. - Quero andar no meu 
pnei! Quero cavalgar sob o sol!
" o que eu tambm desejaria fazer. ", pensou, melanclica, enquanto 
observava as nuvens negras e pesadas prenunciando chuva grossa.
De repente, lembrou-se de um velho ditado que dizia: "Maro traz o vento, 
abril, a chuva e os raios. Para depois virem as flores de maio..."
Apertou a capa contra o corpo, procurando aquecer-se. Aquela roupa 
estava-lhe sendo mais til do que nunca, embora ainda fosse difcil 
acreditar que possua algo elegante. Aquele traje sem dvida custaria 
muito mais do que o pai receberia por um manuscrito publicado!
O casaco de Felicity era de l, com punhos e gola de veludo, 
complementado por um gorro e luvas de pelica, peas que Nataly havia 
encontrado no fundo da mala.
A garota exclamara:
- Puxa, eu vestia essas coisas quando era bem pequena, mas nunca quis 
us-las em Tangier.
- No, claro que no, l era quente demais. Mas, aqui, essas peles a 
protegero do frio e deixaro suas mos e orelhas quentinhas! Faz frio 
at na primavera, sabia?
- Ento, estamos na primavera? Mon pre tinha razo, a Inglaterra  feia 
e fria. Quero voltar para casa!
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j lhe contei do calor que eu e papai passamos uma vez
no deserto, quando um dos camelos morreu de sede?
No! Como foi?
Assim, Nataly conseguiu desviar a ateno da garota, e conversaram sobre 
outras coisas durante bastante tempo.
Quando viajavam no Expresso Edimburgo, foi informada de que alcanariam a 
parada do Castelo Roth s cinco horas da tarde, o que muito a alegrou, 
pois, quela hora, seria fcil encontrar carruagem para alugar.
Mas as previses tinham sido otimistas demais, e o trem acabou se 
atrasando mais de uma hora. J passava das seis quando a locomotiva 
soltou fumaa ao se deter numa pequena plataforma perdida no meio do 
campo.
"Parada para o Castelo Roth", dizia uma placa de madeira balanando ao 
vento.
O quarda do trem veio correndo abrir a porta da cabine, e depois de 
ajud-las a descer perfilou-se para esperar que o vago das bagagens 
parasse na plataforma.
Na estao, havia apenas um velho porteiro que, mesmo ajudado pelo 
guarda, levou muito tempo para descarregar todos os bas.
- Vai para o castelo, lady? - perguntou ele, surpreso, depois que o trem 
partiu. - No h nenhuma carruagem  espera.
- Eu gostaria de alugar uma.
O porteiro puxou o bon para trs e coou a testa.
- Agora  tarde, e ningum nos informou de que chegariam visitas hoje.
- Mas ns temos que ir at l. Essa garota est cansada. Fizemos uma 
longa viagem.
- Sua Excelncia as espera?
Nataly hesitou um segundo antes de responder, imaginando que cometeria um 
erro se dissesse "no".
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- Espero que sim, a menos que o correio tenha atrasado minha carta.
O velho pareceu convencido, pois indicou-lhes a minscula sala de espera
com a mo.
- Bem, sente-se, senhorita. Verei o que posso fazer.
- Estou cansada - reclamou Felicity. - Quero ir para o castelo.
- Temos de esperar um pouquinho, querida. Aquele senhor vai procurar uma
carruagem para ns.
- Por que no h carruagem  nossa espera?
A garota parecia to indignada, que Nataly riu consigo ms ma. Havia 
crianas habituadas a tanto luxo, que o tomavam como direito.
Embora estivessem protegidas do frio, foi at a pequena lareira para 
acender o fogo. No estoque havia poucos gravetos, mas graas  prtica
que adquirira durante os acampamentos logo as chamas crepitavam
alegremente, para deleite de Felicity.
- Voc  uma governanta engraada. Sabe contar histria; e fazer um monte 
de coisas! Vai ficar no castelo bastante tempo no vai?
- Espero que sim, querida, espero que sim! - respondeu em voz baixa, 
recolocando as luvas de pelica j um tanto amassadas pela viagem.
Se o conde a contratasse como governanta da garota, seus problemas 
estariam resolvidos, pelo menos por algum tempo.
Durante a viagem pensara bastante no assunto e chegara  concluso de que 
o melhor seria persuadir o conde a empreg-la. Na certa, ele no teria
outra pessoa disponvel para o cargo, e Nataly sabia que, to logo
pagasse aquela carruagem e o cocheiro, no lhe sobraria quase nada.
"Talvez at eu receba um salrio generoso. Ou estarei sonhando alto 
demais? "
Naquele instante, o porteiro voltou.
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Arrumei-lhe uma carruagem, lady. S porque a senhorita
est indo ao castelo, convenci Jim Roberts a lev-las. No costuma selar
o cavalo depois de t-lo deixado na cocheira, mas vai fazer uma exceo.
- Fico-lhe muito grata - disse ela, percebendo que teria de pagar ao
porteiro e ao cocheiro quase o dobro do que havia pensado.
Quando Jim Roberts apareceu com sua carruagem antiga e pequena, assustou- 
se com a quantidade de bagagem.
- No vai dar para levar tudo isso, lady!
- O senhor pode fazer duas viagens, ou ento, guardar os bas maiores 
aqui na estao. Amanh mandarei algum vir busc-los.
O cocheiro assentiu com um gesto de cabea e empilhou a metade das malas 
na carruagem e as caixas de chapus no pequeno assento da frente, ao lado 
delas.
Quando finalmente partiram, o veculo estava to pesado, que Nataly 
receou que os cavalos no aguentassem a carga, mas eles tinham 
constituio slida e no houve problemas durante o trajeto.
A noite caa rapidamente pelos campos, como um manto de veludo azul-
marinho. Jim Roberts acendera as lanternas de vela de cada lado da 
carruagem.
- Agora, voc vai me mostrar o castelo, Felicity.
Ai, eu me esqueci de como ele .
- Mas no se esqueceu de seu pai, no ?
A menina calou-se, pensativa, e s depois de um minuto falou:
- Papai ficou muito bravo com mame. Ele gritou, gritou, e ela chorou.
- Oh.
- Depois, mame e eu fomos embora com mon pre. Ele ficou muito contente 
quando a viu e nunca gritou com ela.
- Conte-me sobre o castelo - disse Nataly, constrangida, tentando mudar 
de assunto. - Ele  muito velho?
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- Estou com frio. Quero voltar para o sol! Quero ver mame!
- Fique aqui pertinho de mim. - Abraou a menina, que estava prestes a 
chorar. - Assim no sentir frio, vou lhe contar uma histria.
- com bichos?
- Sim, vou lhe falar sobre uma vez em que eu e papai estvamos numa ilha, 
no meio de um lago enorme, cheio de crocodilos.
A histria se estendeu at a carruagem passar por duas imponentes colunas 
de pedra que flanqueavam um imenso porto de ferro trabalhado. No topo de 
cada coluna, havia duas casinhas com sentinelas, como se fossem castelos 
em miniatura.
Ainda continuaram por um longo percurso, muito escuro, margeado por 
rvores altas e esguias. Por entre as folhagens, Nataly podia distinguir
algumas luzes, vindas das janelas do castelo.
Quando as rvores acabaram, teve a primeira viso de construo: um 
edifcio imenso, com uma grande torre redonda de um lado e outras menores 
do outro, o perfil negro recortado contra o cu.
- Aqui estamos, querida, at que enfim! Veja como o castelo  magnfico!
 medida que se aproximavam, no entanto, constatou que aquele no era o 
termo adequado para descrever o Castelo Roth. Algo de ameaador, pesado e 
escuro na construo a deixou amedrontada.
Os cavalos, cansados e inquietos, se detiveram  entrada, onde havia 
apenas uma luz acesa sobre o arco de pedra que circundava a porta em 
estilo gtico. Nataly no se moveu, esperando que os serventes viessem 
atend-los ao ouvirem o barulho da carruagem.
Jim Roberts adiantou-se subindo pesadamente os degraus de
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pedra e tocando o sino da entrada. Depois de muito tempo, algum veio 
atender e ela decidiu descer e apresentar-se. Abriu a portinhola da
carruagem e chamou Felicity.
- L dentro, voc vai poder se esquentar, querida.
De mos dadas com a menina, galgou os degraus com firmeza e deparou-se 
com um velho mordomo que, boquiaberto, olhava para a bagagem amontoada na 
carruagem.
- O conde de Rothwell est?
- Sim, Sua Excelncia est em casa, milady, mas no creio que espere 
visitas.
- De fato. Mas tenho urgncia em v-lo.
- Sua Excelncia poder falar com a senhorita, caso marque uma 
entrevista.
- Pode dizer ao conde que eu trouxe sua filha, lady Felicity Roth, para 
visit-lo?
O mordomo olhou para a criana, com uma expresso de surpresa e
curiosidade. J num outro tom, continuou:
- Bem, nossa condessa cresceu muito desde a ltima vez em que a vi!
- Tenho oito anos, e lembro-me dessas bandeiras - disse ela, apontando 
para a imensa lareira de pedra no hall, onde velhas bandeiras medievais 
pendiam do teto.
- Claro que se lembra, pois sempre queria brincar com elas, mas, se as 
tocar, se desmancharo em farrapos.
- Por qu?
Elas so muito, muito antigas, condessa. O mordomo virou-se para Nataly.
- Por favor, entre, milady, e comunicarei ao conde sua chegada. Ele 
ficar muito surpreso ao ver a jovem condessa!
Ela o seguiu pelo hall de mrmore, sobre o qual repousavam alguns tapetes 
persas. O mordomo abriu uma porta e elas entraram.
- Cuidarei de sua bagagem, milady. Presumo que a condessa ficar aqui.
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- Espero que sim. No temos outro lugar para ir a esta hora da noite. Oh, 
quase ia me esquecendo! Preciso pagar o cocheiro
- Deixe isto comigo, milady.
O mordomo se retirou e Nataly olhou, fascinada, para a sala de estar 
iluminada por uma grande lmpada a leo sobre uma mesa repleta de livros. 
Havia vrias estantes, uma escrivaninha, sofs e poltronas ricamente 
estofados, e o fogo crepitava convidativamente na lareira. Certamente, 
ali devia ser a sala privada do conde.
- Lembra-se desta sala? - perguntou a Felicity, que havia se sentado no
sof e deitara a cabea nas almofadas.
- Estou com fome e sede! Quero dormir!
- Pedirei uma bebida assim que formos para os quartos, querida. Tenha um 
pouco de pacincia.
- Mas eu me sinto cansada!
A garota bocejou, e Nataly desamarrou as fitas que lhe prendiam o chapu 
na cabea, deixando-a mais confortvel. Os cabelos escuros e 
encaracolados caram em cascata pelos ombros da menina, tornando-a bonita 
e graciosa.
Era impossvel que o conde no ficasse orgulhoso da filha!
No entanto, sentia-se um pouco apreensiva quanto  reao dele ao 
deparar-se com aquela situao. Afinal, a filha lhe estava sendo 
devolvida pela esposa, sem nenhum aviso prvio, para morar com ele 
durante o resto da vida!
Algumas vezes, no transcorrer da viagem, perguntara-se se no teria sido 
mais sbio pedir  condessa que escrevesse uma carta avisando-o do caso. 
Mas o assunto lhe pareceu muito ntimo para se abordar. Ela havia sido 
contratada para levar Felicity at seu pai, e no existia razo para 
envolver-se mais profundamente em coisas que no lhe diziam respeito.
De qualquer maneira, se envolvera, pois ali estava com a criana, e, sem 
dvida, teria de dar algumas explicaes ao
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conde. Um frio percorreu-lhe a espinha. Que posio mais constrangedora!
Sobressaltou-se ao ouvir uma porta se abrir, mas era apenas o mordomo que 
voltava.
- O sr. conde est jantando, milady. Quando terminar, acredito que venha 
falar com a senhorita - avisou ele, fechando a porta antes que Nataly 
pudesse dizer qualquer coisa.
- Como, "acredito que venha"? - perguntou baixinho. Que mais ele pode 
fazer?
- Estou com muita sede.
Nataly procurou por alguma bandeja com limonada, ou mesmo com gua, mas 
nada encontrou na sala. Temendo dirigir-se ao hall e deparar-se com o 
conde em vez do mordomo, tocou a sineta interna.
- vou lhe pedir um copo de leite igual quele do hotel, lembra-se, 
querida?
- Oba, eu quero!
O mordomo, que devia estar servindo o patro  mesa, atendeu ao pedido 
muito tempo depois. Nataly viu a criana sorver o leite com um sorriso 
nos lbios. Em Tangier, ele no era assim, grosso e cremoso, nem mesmo na 
Frana. Lembrava-se vagamente de como adorava beber aquele leite quando 
pequena, na ocasio em que viera para o enterro do av.
Depois, crescendo no norte da frica, havia se desacostumado e agora, que 
o experimentara novamente, agradveis reminiscncias da infncia lhe 
voltavam  mente.
Felicity bebeu at a ltima gota e, dali a pouco, adormecia no sof. 
Nataly ergueu-lhe as perninhas sobre as almofadas, ajeitando-a numa 
posio mais confortvel e sentou-se a seu lado, apreensiva. O relgio, 
em cima da lareira, batia incessantemente, o que aumentava seu nervosismo 
diante da espera.
De repente, a porta se abriu e o conde entrou.
Muito alto, moreno, de cabelos to escuros quanto os da filha,
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ele parecia ameaador. As sobrancelhas franzidas, numa linha contnua 
sobre o nariz aristocrtico, e os olhos, tambm escuros, revelavam 
extrema contrariedade.
Nataly notou a boca comprimida fortemente, os punhos cerrados, e 
 levantou-se, amedrontada.
Ele fitou-a, depois olhou para a criana e tornou a fit-la.
- Quem  voc? E o que diabos esto fazendo aqui?
CAPITULO III
As palavras do conde ecoaram pela sala como um estrondo e Nataly, depois
de reunir toda sua coragem, ergueu a cabea.
- Trouxe sua filha para casa.
- Sob ordens de quem? Ou no preciso perguntar? Pois podem voltar para o
lugar de onde vieram!
- Isso. isso  impossvel!
- Nada  impossvel! Diga a quem a mandou aqui que no tenho inteno de 
me comunicar com ela, a no ser atravs de nossos advogados.
Dito isso, ele virou-lhe as costas e foi at a porta.
- Saiam daqui imediatamente!
Horrorizada, Nataly soltou um grito de desespero, correndo at ele.
Mas, no pode fazer isso! No podemos ir embora a essa hora da noite.
- Por que no? No as convidei, e tenho certeza de que encontraro um 
lugar mais apropriado para ficar!
Por favor. estivemos viajando por muitos dias. No
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posso levar Felicity para a rua novamente, mesmo se tivesse onde passar a 
noite. Ela est muito cansada.
- Problema seu!
- O senhor no compreende. Viemos de uma longa viagem, desde Tangier.
- Tangier? - O conde, que estava com a mo na maaneta, virou-se para 
fit-la. - Pensei que estariam em... Bem, no me interessa! Ela cuidou da 
criana durante trs anos, agora cuidar at o fim!
- No deve dizer isso! Felicity no  feliz onde mora e sua me insistiu 
que... eu a trouxesse para c... para seu lar.
Uma risada sarcstica ecoou pelas paredes.
- Lar!  um pouco tarde para isso agora, no acha? No! No aceitarei 
essa devoluo atrasada de algo que j me pertenceu. Leve a criana de
volta para a me e dane-se!
Aquelas palavras foram a gota d'gua que faltava para Nataly perder o 
controle que vinha tentando manter. Ficou to possessa diante da 
crueldade do conde em relao  prpria filha, que deixou de tem-lo. O 
sangue lhe subiu s faces e seus olhos, mais verdes do que nunca, 
pareciam soltar fascas de raiva.
- Muito bem, se esta  sua ltima palavra, Felicity e eu partiremos. Mas, 
j que no temos para onde ir, talvez possamos passar a noite nos degraus 
da entrada, ou na cocheira!
Houve um momento de silncio, e ele ficou desconcertado por alguns 
instantes.
- Como conseguiram chegar at aqui a essa hora?
- Alugamos uma carruagem na parada, onde, alis, deixamos parte de nossa 
bagagem. O cocheiro, Jim Roberts, com certeza nos levaria de volta, mas a 
essas alturas j deve ter ido embora para casa.
Tendo considerado a resposta, o conde largou a porta e voltou para perto 
da lareira. De costas para o fogo, olhou a criana adormecida no sof.
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Pai e filha eram muito parecidos, mas nem essa constatao foi capaz de 
desanuviar as feies tensas dele. Fitava a garota como se a odiasse e 
como se a presena delas no Castelo Roth fosse uma intruso.
Felicity se mexeu e abriu os olhos. Primeiro, olhou em torno, sem saber 
onde estava, mas, depois que viu o conde, sentou-se na almofada e fitou-o 
durante alguns segundos.
- Papai?
- Voc se lembra de mim? - perguntou ele, secamente.
- Voc  o papai! Mame me disse que me dar um pnei porque tem 
estbulos com muitos cavalos.
- Por que deveria lhe dar alguma coisa? Voc foi embora
e me deixou.
- Agora, eu voltei. Estou cansada e tenho sede. Quero beber
leite!
Nataly olhou-o em silncio. Contrafeito por ter de entregar os pontos e 
ceder, o conde dirigiu-se a ela:
- Suponho que precisem pernoitar aqui. Direi a Dawson que as leve at a 
governanta.
Dito isso, saiu to rpido, que ela nem conseguiu responder.
- Quero beber leite, estou com sede!
- O leitinho vir daqui a pouco, querida - disse, respirando 
profundamente, como se tivesse travado uma batalha com o conde.
O mordomo veio pressuroso para conduzi-las escadaria acima. Uma senhora, 
com um vestido preto e um impecvel avental branco por cima, as esperava 
com todas as chaves do castelo, que pendiam de um cordo dourado preso  
cintura dela.
Enquanto subia para o segundo andar, Nataly agradeceu a Deus por no t-
la abandonado naquela hora de necessidade. Estava extremamente exausta e 
a simples ideia de ter que ir embora do Castelo Roth, quela hora da 
noite, a apavorara. Alm do mais, se tivesse que voltar a Tangier, com a 
criana, a tragdia estaria formada!
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"Como ele pode ser to cruel, ofensivo e agressivo?", perguntou a si 
mesma.
Quando, finalmente deitou-se na cama macia, justificou o fato de a 
condessa ter ido embora, apesar de t-lo feito com um homem casado. 
Lembrou-se do magnfico quarto com o dossel branco pendendo dos anjos 
dourados, em Tangier, e comparou-o quele, para onde fora levada que, 
apesar de confortvel, inspirava um certo temor.
O teto altssimo, as janelas longas e estreitas com cortinas de veludo, a 
cama imensa, de carvalho, tudo muito sbrio, e definitivamente estranho e 
ameaador.
- Amanh abrirei o primeiro andar, onde ficam os quartos da pequena 
condessa e de seus brinquedos - avisara a governanta, sra. Briercliffe. - 
Por hoje, como esto as duas muito cansadas,  melhor dormirem nos 
quartos de hspedes.
-  verdade. Fizemos uma longa jornada at aqui.
- De Paris?  Nataly compreendera, naquele momento, que todos ali,
inclusive o conde, julgavam que Felicity e a me estavam na Frana.
- No, de Tangier, no Marrocos.
- Meu Deus! Nunca pensei que a condessa fosse parar numa parte to 
perdida do mundo.
Embaraada por ter falado demais, a governanta havia se voltado para dar 
ordens s criadas que carregavam os bas e as malas.
Felicity fora presenteada com leite e biscoitos, mas, depois, reclamara 
da cama, grande demais.
- Quero ir para aquele quarto onde eu dormia. Onde est meu cavalinho de 
balano?
- Est tudo no primeiro andar, condessa - respondeu a sra. Briercliffe. - 
Amanh, todos os quartos sero arejados e limpos para seu conforto. Esto 
do mesmo jeitinho que... que vocs os deixaram.
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Quero meu cavalinho de balano e um pnei.
- Estou certa de que ter tudo o que quiser amanh, querida - respondeu 
Nataly, enquanto a despia com o auxlio de outra criada. - Agora est na 
hora de dormir. De manh, tudo parecer diferente, voc vai ver!
"Diferente e menos ameaador", completou mentalmente, lembrando-se de que 
o conde lhes dera permisso para ficarem apenas aquela noite.
Quando entrou em seu prprio quarto, a governanta, percebendo seu 
cansao, mostrara-se muito gentil.
- Mandarei vir alguma coisa para a senhorita comer. Poderia tambm 
instruir Jeannie sobre o que gostaria que fosse desempacotado esta noite. 
O resto pode esperar at amanh.
- Sim, assim ser melhor, obrigada. Eu tambm estou fatigada.
- De fato, parece exausta!
Dera ordens para que Jeannie desfizesse apenas a mala indicada por 
Nataly, e depois havia supervisionado a bandeja de comida trazida por um 
empregado, que arranjara os pratos sobre a mesinha do quarto.
Aps a criada ter se retirado, Nataly fora verificar o contedo dos 
pratos cobertos. Tudo lhe parecia delicioso, mas s conseguira comer um 
pouco, devido ao cansao da viagem e da conversa com o conde.
Como no havia previsto essa reao? Deveria ter imaginado que, depois de
trs anos sem notcias, ele ficaria ressentido ac receber a filha de
volta, sem nenhum aviso!
Deitara-se esgotada, e, no conseguindo mais pr os pensamentos em ordem, 
lembrara-se dos conselhos de padre Ignatitis:
"Se estiver em dificuldades, reze, que Deus vir ajud-la."
"Preciso de ajuda agora, com certeza!", e, com uma prece nos lbios,
acabou adormecendo.
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Na manh seguinte, Felicity despertou-a do sono profundo, pulando sobre a 
cama.
- Acorde, srta. Lindsay, quero ir ver o meu pnei. Mame disse que papai 
me daria um, e j olhei pela janela para ver se ele estava correndo no 
gramado.
Aos poucos, Nataly voltou do mundo dos sonhos para a realidade, e sorriu.
- Se h um pnei, ele deve estar nos estbulos.
- Ento, vamos procur-lo!
- Vamos, sim, mas primeiro tomaremos o caf da manh. Sentou-se na cama, 
sonolenta, esperando a vista se desanuviar
e lembrou-se do que Jeannie lhe dissera na noite anterior:
- Se quiser alguma coisa, milady, toque a campainha, e virei v-la. O 
castelo  muito grande e, por isso, demorarei um pouquinho para chegar.
Olhou em torno e viu uma faixa de veludo vermelha toda bordada, e puxou-a 
com determinao, imaginando que caminhos os fios teriam de percorrer at 
a campainha tocar do outro lado do castelo, na ala de servios.
Felicity, excitada com as novidades, desceu da cama e foi at a janela, 
ainda coberta pelas cortinas pesadas.
- No vi cavalos no gramado, mas h uns bichinhos esqui sitos, parecidos 
com cabras.
- Cabras? - Nataly abriu as cortinas. - Ora, so veadinhos!
- Como so eles?
- Oh, bastante delicados e vivem no parque do castelo. So lindos, no
acha?
- Veadinhos! - repetiu a criana, maravilhada, como se procurasse por
eles na memria.
Nisso, a criada entrou, desculpando-se pelo atraso. 
- Est tudo bem, Jeannie, voc veio rpido. Diga-me, onde tomaremos o 
caf da manh?
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Como o primeiro andar ainda no est limpo, a sra. Briercliffe achou 
melhor que a senhorita e a condessa tomassem o caf na sala da manh. O 
conde costuma comer na sala de jantar, mas a sra. Briercliffe julgou que 
ele no gostaria de t-las como companhia por enquanto. Est muito 
acostumado  solido.
- Sim, claro.
Nada seria mais embaraoso do que tomar caf da manh com o conde, depois 
da cena da noite anterior!
Receando encontrar-se com ele por acaso nos corredores, apressou Felicity 
para descerem pela escada principal, mais utilizada pelos hspedes do que 
pelos moradores.
Um criado as escoltou pelos corredores e por uma passagem mais larga, 
onde havia diversas armaduras de ferro enfileiradas. Por fim, entraram 
numa saleta clara, confortvel, onde a mesa j estava posta.
Outro criado ficava ao redor da mesa, servindo-as, e havia muitos pratos 
a escolher. Lembrando-se das precrias refeies da Misso, Nataly no 
pde deixar de sorrir. Quantas vezes no se levantara da mesa ainda com 
fome!
Felicity, por outro lado, parecia muito  vontade. Em sua casa, devia ser 
acostumada com muita fartura, e serviu-se por duas vezes de um prato de 
sua preferncia. Ao final, comeu torradas com manteiga e mel.
- Esse mel  mais gostoso do que aquele de Tangier. Eu gosto muito.
- Eu tambm - concordou, lembrando que, minutos antes, a garota estava 
choramingando por causa do frio e por ter de vestir tantas roupas.
"Ainda bem que as crianas adaptam-se facilmente a novos ambientes", 
consolou-se, aliviada.
Mesmo assim, sentia-se apreensiva, temendo que no houvesse muitas roupas 
de frio na mala, j que, em Tangier, fazia bastante
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calor. Todas as antigas roupas de l de Felicity agora eram muito pequenas para ela...
Os vestidos da menina deviam ser, em sua maioria, muito leves, como aquele que usava quando Nataly a vira pela primeira vez, de musselina esvoaante e rendas.
Mais tarde cuidaria disso; por enquanto, no ousava dar ordens aos criados para desfazerem todas as malas. Afinal, o conde ainda no lhe dera uma resposta definitiva.
Como Jeannie e a sra. Briercliffe estavam cuidando da limpeza dos quartos de Felicity, pedira a elas que aguardassem para abrir as malas, coisa que muito as alegrara, 
j que, sem dvida, facilitaria em muito o trabalho.
Quando saram da sala da manh, Dawson, o mordomo, veio ao seu encontro.
- Seus outros bas chegaram, srta. Lindsay, e j agradeci a Roberts por t-los trazido.
- Gostaria de agradec-lo pessoalmente - respondeu, desejando oferecer-lhe uma generosa gorjeta pelo favor que o cocheiro lhe prestara na noite anterior.
- Ele se foi, milady, mas paguei-o bem por seu servio.
- Ento obrigada, Dawson - respondeu, constatando que, apesar de poupado o dinheiro da gorjeta, a quantia de que dispunha no seria suficiente para ela e Felicity 
irem mais longe do que alguns quilmetros do Castelo Roth.
- Quero ver meu pnei! - disse a menina com impacincia.
De repente, sentindo um desagradvel aperto na garganta, Nataly viu o conde aproximar-se. Saa da sala de jantar, a testa franzida e o rosto ameaador, como na noite 
anterior.
Prendeu a respirao, nervosa, mas a menina soltou a mo da sua, e correu em direo ao pai.
- Papai! Quero ver meu pnei, papai! A srta. Lindsay diz que ele est no estbulo. Oh, papai, por favor, posso ir v-lo agora?
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O conde olhou para a criana sem nenhuma demonstrao de carinho ou emotividade, limitando-se a dar ordens ao mordomo:
- Diga a um dos criados para acompanhar a condessa aos estbulos. Ou melhor, v voc mesmo, Dawson. Desejo conversar com a senhorita que a trouxe.
Apreensiva, Nataly sentiu-se tentada a dizer que preferia acompanhar Felicity, mas sabia que jamais deveria contradizer as ordens do conde sem um bom motivo.
- Vamos, condessa - convidou Dawson, estendendo a mo para a menina. - Vamos ver os cavalos do conde, que so muito bonitos. Creio que deveria levar um casaco, caso 
sinta frio. Vamos peg-lo?
- Vamos, vamos!
O mordomo e Felicity desapareceram pela passagem, em direo ao hall, e Nataly sentiu o corao disparar ao ouvir a voz grave do conde:
- Venha comigo, senhorita.
Seguiu-o alguns passos atrs, como uma colegial travessa, prestes a receber alguma punio, e entraram numa sala que correspondia exatamente  imagem que Nataly 
fazia de uma biblioteca do castelo.
Muitas vezes seu pai lhe descrevera em detalhes as bibliotecas da nobreza inglesa, que acumulavam durante os sculos colees de livros enumerados e colocados em 
estantes de modo cuidadoso. Por isso, as bibliotecas da Inglaterra eram famosas no mundo inteiro.
Fascinada, contemplou as estantes que iam do cho ao teto, circundadas por um balco polido, ao qual se chegava por uma escadinha em caracol, e sentiu saudades do 
pai, imaginando como o velho pesquisador apreciaria ter acesso a todas aquelas obras.
Por um instante, esqueceu-se do conde e da desagradvel
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entrevista que estava por vir, para pensar em como aquele acervo de
livros poderia ter sido til ao velho Gordon Lindsay, quando fazia suas
pesquisas e estudos.
-  impossvel se fazer pesquisas neste lugar - lamentava se ele em 
Algier, Tunsia, ou qualquer cidade grande, onde se detinha para compilar um 
artigo conciso, depois de ter reunido diversas informaes das tribos que
pesquisara no deserto.
- Sua biblioteca da Inglaterra era grande, papai?
- Hum. com certeza ela me seria valiosa, apesar de meu pai e meu av terem
colecionado muito mais livros de literatura do que de culturas de outros
povos! Alis, como voc sabe, h pouca coisa escrita sobre as tribos
africanas. Caso contrrio, eu no seria considerado uma autoridade no assunto!
- Oh, papai, voc e sua modstia incurvel! Todo o mundo sabe que  um
grande pesquisador. Afinal, est dedicando sua vida ao estudo!
- E com o maior prazer.
A voz rspida do conde despertou-a bruscamente para a realidade.
- Sente-se!
Ele apontou para uma cadeira, do outro lado da escrivaninha estilo 
georgiano,  qual j estava acomodado. O mvel ficava entre duas grandes 
janelas, em cujos centros havia vitrais colori dos com o braso da 
famlia Roth.
Os raios de sol se filtravam pelas brechas da cortina e pelos espaos
transparentes dos vitrais, revelando os reflexos ruivos dos cabelos de
Nataly.  sombra, eram louros apenas, mas quando iluminados pelo sol quase
mudavam de cor, sobressaindo-se os tons avermelhados.
Os olhos esverdeados sobressaam em seu rosto plido e ovalado. Mas o
conde a fitava com frieza, como se a insultasse. Nataly percebera essa
mesma expresso na noite anterior, mas no conseguia compreender o motivo.
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Agora, quero uma explicao. Por que voc est aqui?
O que a levou a achar que eu aceitaria minha filha de volta depois de
trs anos?
Pensou em contar a ele que s conhecera a criana e a condessa um dia  
antes da partida, mas imediatamente ponderou que, se o fizesse, estaria 
ao mesmo tempo assinando sua carta de demisso. Esses pensamentos lhe 
passaram pela mente em questo de segundos.
- Fui contratada como governanta de Felicity, senhor, e me foi ordenado 
que a trouxesse  Inglaterra.
- Ento, srta. Lindsay - disse ele com desdm, como se no acreditasse em 
uma s palavra -, voc  uma empregada que recebe salrios e no 
questiona as ordens recebidas.
Nataly olhou para baixo, as faces rubras de indignao. O conde estava 
sendo propositalmente rude.
Refletiu que, naquele momento, mais importante era no perder o controle 
e manter a dignidade. Precisava desesperadamente do emprego. Portanto, s 
lhe restava calar-se e escutar. Alm disso, havia Felicity, que ficaria 
muito carente de afeto e ateno se ela fosse embora.
- Exato. Embora seja uma descrio pouco elogiosa de minha posio.
- Se eu as mandasse embora, como pretendia fazer ontem  noite, para onde 
iriam?
- Honestamente, no sei.
O conde apertou os lbios. Aquela governanta o colocara numa posio 
difcil!
- Se eu mantiver Felicity aqui, est preparada para ficar com ela?
Era o que eu esperava. Mas  lgico que cabe ao senhor escolher como e 
por quem ela ser educada.
O conde levantou-se devagar, postando-se de costas para a lareira, onde 
algumas achas ainda ardiam.
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- Considero tudo isso intolervel! - murmurou baixinho, como se falasse 
consigo mesmo.
Nataly ficou em silncio. De nada valeria conversar com ele, ou tentar 
ajud-lo. Continuou imvel, de costas para a lareira, muito ereta na 
cadeira.
- Por Deus, o que esperava que eu fizesse? Que aceitasse minha filha de 
volta, como se nada tivesse acontecido, como se ela no tivesse sido 
tirada de mim h trs anos? Desde ento, no tive uma nica notcia, nem 
fazia a menor ideia de onde estava!
- Agora, ela voltou para o seu lar.
- Fico surpreso em saber que aquela... a mulher que a levou reconhea 
isso agora. Ao mesmo tempo, creio ter todo o direito de mandar Felicity 
de volta a Tangier.
Ela sentiu-se impulsionada a responder que, se a criana voltasse para 
l, talvez no encontrasse mais a me. Entretanto, ponderou que aquela 
observao podia ser perigosa.
A condessa estava mesmo muito doente, como o padre Ignatius lhe dissera, 
mas no havia razo para supor que no se recuperaria.
Se contasse ao conde que a esposa estava gravemente enferma, poderia dar-
lhe esperanas de se ver livre.
"Talvez ele esteja querendo se casar com algum e, se a esposa vier a se 
restabelecer, ficar furioso, pensando que inventei uma fofoca 
inconsequente."
- No tem uma opinio sobre o assunto, srta. Lindsay?
- Preocupo-me apenas com lady Felicity, senhor. Pelo que pude observar,
ela no vivia feliz em Tangier, e por essa razo foi mandada para c.
- O que quer dizer com "no vivia feliz"? Se aquele suno a tratou mal,
juro que o matarei! - vociferou ele, de punhos cerrados.
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com o corao acelerado, ela entrelaou os dedos das mos, nervosa. 
Percebendo sua perturbao, o conde mudou o tom de voz.
- No deveria infligir-lhe meus sentimentos desta maneira. Ao mesmo 
tempo, voc no parece uma governanta comum. Suponho que tenha havido uma 
boa razo para ser contratada.
- Creio que a nica razo foi o fato de eu ser inglesa.
O lorde fitou-a por um instante, atnito, como se tal ideia nunca pudesse 
ter lhe ocorrido.
- E o que est ensinando a Felicity?
- No foi possvel lecionar nada durante nossa viagem, mas agora ela deve 
aprender um pouco sobre a Inglaterra e ter as primeiras noes de sua 
lngua.
Fez uma pausa para pensar-melhor, e continuou:
- No ser entediante ou enfadonho, pois est curiosa sobre o pas. 
Lembra-se muito pouco daqui, e tudo lhe parece novo e interessante.
Enquanto falava, imaginava que tambm ela teria muito que reaprender 
sobre a Inglaterra. Depois de anos viajando pelos desertos, era 
fascinante estar naquela velha terra, to verde e frtil.
- Muito bem, creio que tem razo, srta. Lindsay. Depois que Felicity 
estiver mais adaptada, veremos quais as matrias que voc ensinar e para 
quais outras devemos contratar professores.
Tinha vencido! No seriam mandadas embora, e continuaria como governanta 
da menina. Esforou-se para aparentar calma e segurana.
- Creio ser esta a melhor atitude a tomarmos. Por enquanto, sou capaz de 
ensinar a ela tudo o que necessita nessa idade.
Levantou-se com dignidade. - Deseja conversar comigo sobre algo mais, 
senhor?
- No, srta. Lindsay. Estou satisfeito com suas respostas.
- Obrigada, senhor.
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Lembrando-se de que, a partir daquele momento, era empregada do conde, 
Nataly fez uma pequena reverncia. Estava para abrir a porta, quando ele 
a deteve:
- Sabe cavalgar, srta. Lindsay?
"Sei montar em qualquer animal de quatro patas, de um dromedrio at um 
burro", pensou, divertida, sabendo que pareceria impertinente se 
respondesse dessa forma.
- Cavalguei toda minha vida, senhor.
- Ento, tem minha permisso para acompanhar Felicity. Se, no entanto, 
considerar meus cavalos indceis, no hesite em pedir um mais manso.
- No ser preciso, senhor.
Assim que se viu do lado de fora da biblioteca, uma onda de felicidade a 
invadiu. Podia ficar! Por enquanto, pelo menos, estava segura e bem paga, 
no passaria fome em hotis baratos  procura dos parentes.
Se o conde a mandasse embora, provavelmente teria de mendigar alguns 
trocados para sair dali, o que teria sido horrvel! Graas a Deus, isso 
no acontecera! Aquele homem era amedrontador, muito esquisito!
Excitada com a pequena vitria, dirigiu-se aos estbulos, sem se importar 
em colocar um chapu. Foi s quando notou o olhar atnito do mordomo, que 
se deu conta de estar parecendo muito anticonvencional.
"Preciso tomar cuidado!", ralhou consigo mesma. "Governantas no costumam 
andar por a sem estarem corretamente vestidas! "
Felicity e ela percorreram os estbulos de baia em baia, admirando os 
magnficos corcis e Nataly sentia-se extremamente feliz por ter obtido 
permisso para mont-los. No via a hora de sair para um passeio!
Ocorreu-lhe que talvez no houvesse roupa de montaria entre
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os trajes que a condessa lhe dera. Essa ideia diminuiu-lhe o entusiasmo, 
embora ela tentasse se convencer de que devia haver algum traje adequado 
dentro de um daqueles bas.
Depois de terem visto cada cavalo, Felicity consentiu em voltar para o 
castelo. L, foram informadas de que toda a bagagem j fora transferida 
para o primeiro andar, agora pronto para receb-las.
O quarto de brinquedos de Felicity era magnfico, a parede da lareira 
inteiramente recoberta por pinturas de castelos, reis e rainhas, fadas e 
pssaros. No centro do cmodo, havia uma casinha de bonecas com portas e 
janelas que se abriam, decorada com mveis e armrios em miniatura.
Uma srie de bonecas estavam dispostas nas prateleiras, algumas de 
biscuit, aquela finssima porcelana to comum na Holanda e na Frana, 
outras de pano, com vestidos rendados, e tambm um ursinho de pelcia, um 
pouco menor do que aquele que a menina trouxera de Tangier.
Sob a superviso da sra. Briercliffe, duas serventes desfaziam os bas, e 
aliviada Nataly constatou que, entre as roupas de Felicity, havia muitas 
confeccionadas em tecidos mais grossos, prprias para o frio. Algumas, no 
entanto, j eram pequenas para a garota, mas a governanta tranquilizou-a, 
dizendo que a costureira do castelo as reformaria sem dificuldade.
Felizmente, havia tambm diversos casaquinhos e capas de l, e ao 
mencionar que talvez Felicity estranhasse o frio da Inglaterra, depois do 
calor de Tangier, a sra. Briercliffe prontamente ordenou que 
providenciassem mais carvo e lenha para aquela ala do castelo.
A cama da menina estava coberta por uma finssima colcha rendada e, sobre 
a cabeceira de cobre polido, pendia uma cortina de musselina rosa. No 
quarto de Nataly, que ficava ao lado, havia tambm uma cama com uma 
belssima cabeceira de cobre ornamentado.
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- A senhora condessa comprou essas camas antes de o conde nascer - 
explicou a governanta. - Oh, sim, isso me lembra uma coisa, srta. 
Lindsay, a senhora condessa espera encontrar-se com Felicity antes do 
almoo.
- A senhora condessa?
- O conde no lhe explicou que sua av, a viva lady Rothwell, mora aqui?
- A bisav de Felicity?
- Sim, milady.
- No fazia a menor ideia. Felicity nunca me falou dela!
- Deve ter-se esquecido. Sua Alteza  muito velha e talvez um pouco
altiva. Mas, como costumamos comentar entre ns, mais late do que morde,
embora as criadas mais jovens morram de medo dela!
Nataly, contudo, considerou muito estranho o fato de ningum ter 
comentado antes a presena daquela senhora no Castelo Rothwell.
Enquanto trocava de vestido, escolhendo um claro e apropriado para aquela 
hora do dia, uma criada chegou, esbaforida, comunicando-lhe que era para 
ela e lady Felicity apresentarem-se imediatamente nos aposentos da 
senhora condessa.
- Minha bisav? - A garota inclinou a cabea de lado, esforando-se para 
lembrar. - A vov. ela fazia mame chorar.
- Mas quer v-la, querida. Seja gentil e bem-educada, dizendo-lhe que 
fica feliz em rev-la.
- No estou feliz se ela fazia mame triste - replicou com lgica 
irrefutvel.
- Isso foi h muito tempo.  melhor esquecermos os fatos desagradveis do 
passado, e pensar sempre nas boas coisas que acontecero no futuro.
- Como andar num daqueles cavalos de papai?
60 
- Seu pai no lhe deu permisso para andar a cavalo, querida. Acho melhor
esperar at ele lhe comprar um pnei.
- vou andar a cavalo, sim! - disse a menina com firmeza.
Eu vi um, l no estbulo, bem mansinho, e o cavalario disse
que eu podia mont-lo sem problemas!
- Espero que possa faz-lo, querida - disse com sinceridade, desejando 
cavalgar o mais breve possvel.
A criana estava encantadora, num vestidinho de mangas compridas, com 
laos nos punhos e no decote e complementado por um corpete de veludo 
bordado na parte superior. Uma fita de cetim rosa prendia-lhe os cabelos 
escuros e encaracolados.
- Vamos andar a cavalo muitos quilmetros, e logo aprenderei a saltar 
obstculos! - dizia ela, dando gritinhos de excitao, enquanto desciam 
as escadas.
- Primeiro, precisarei consultar o conde.
No podia responsabilizar-se por algum acidente, se a menina andasse num 
animal grande demais para ela! Absorta nesses pensamentos, s se lembrou 
de que estava indo conhecer a viva lady Rothwell, quando o criado que as 
acompanhava parou em frente a uma pesada porta de cedro.
Uma velha empregada, veio atender s batidas do criado, que anunciou, 
pomposo:
- Lady Felicity Rothwell.
- J no era sem tempo!
- S poderia ter vindo mais rpido se tivesse voado - resmungou o moo, 
mal-humorado. - Deus no me deu asas!
- Basta de bobagens! - sussurrou a empregada com severidade.
Em seguida, abriu mais a porta, de modo a poder enxergar Felicity.
- Nossa! A pequena condessa, cresceu um bocado! - exclamou em tom 
carinhoso. - Lembra-se de Jaja, como voc costumava me chamar?
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- . Lembro da minha casa de bonecas.
A velha riu, mas depois, ao abrir uma segunda porta, seu rosto tomou uma 
expresso sisuda e sria.
- Aqui est lady Felicity, minha senhora. Transformou-se numa mocinha 
desde a ltima vez em que a viu!
Nataly seguiu a criana pelo quarto enorme. Ao fundo do aposento, havia 
uma vasta cama, com dossel de brocado quase alcanando o teto altssimo. 
As colunas, com arabescos entalhados e entremeados de dourado, terminavam 
em coroas de louros de metal.
No centro da cama, em meio a uma profuso de almofadas e travesseiros, 
estava a senhora mais extraordinria que j vira na vida.
Seu rosto era profundamente marcado, os olhos afundavam-se atrs das 
plpebras murchas e usava uma peruca vermelha, com incontveis pentes 
incrustados de diamantes e pedras preciosas. No pescoo, voltas e voltas 
de prolas, que se derramavam pelos alvssimos lenis de seda.
As mos enrugadas, de veias salientes, carregavam anis de todos os tipos 
e cores, que brilhavam a cada movimento, enquanto os pulsos magros 
exibiam pulseiras e braceletes de diamantes.
Era uma figura to fantstica e extica, que Nataly quase se esquecia de 
fazer uma reverncia respeitosa, quando Felicity avanou em direo  
cama.
- Ento, est de volta! Por que no veio antes?
- Lembro de voc! - gritou a bisneta, excitada. - Lembro dessas jias 
bonitas, voc me deixava brincar com elas!
-  isso mesmo! - disse a velha viva, esboando um sorriso nos lbios
finos, satisfeita. - Que mulher, de qualquer idade, resiste ao brilho dos 
diamantes? Tome, ponha um anel no dedo!
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Tirou um dos adornos da mo esqueltica e jogou-o sobre o colcho. 
Felicity colocou-o no polegar e admirou-o  luz que se filtrava pela 
janela.
- Mame tem um diamante maior que esse!
Um silncio sepulcral caiu no quarto, e Nataly prendeu a respirao. A 
viva fitou-a com um olhar penetrante, como se pressentisse sua 
perturbao interior.
- Voc  a governanta, ento.
- Sim, senhora condessa, sou a governanta de lady Felicity. 
- Pois a mim  no parece ser governanta!  jovem e bonita demais. Est
 atrs do que, de um marido? No encontrar nenhum aqui.
Ruborizada, procurou por palavras para responder quela mulher fora do 
comum. J conhecera muitas velhas esquisitas e excntricas, mas aquela 
extrapolava sua imaginao!
- Estou aqui para administrar a educao de lady Felicity.
- Bem, depois de ter vivido num ambiente francs, isso  fundamental - 
atalhou a viva, com aspereza. - E o que mais essa criana aprendeu 
nesses anos, alm de francs?
Nataly compreendeu de imediato o tom sarcstico da pergunta, mas 
limitou-se a erguer mais a cabea e a no responder.
- Fiz-lhe uma pergunta, minha jovem. Ou voc julga aceitvel o ambiente 
ao qual minha bisneta ficou exposta nos ltimos trs anos?
- Acho que devemos ser leais queles que nos empregam, e  o que sempre 
procurei fazer.
- Tenho certeza de que com muito esforo. No digo que sua atitude seja 
incorreta, mas na minha opinio uma governanta deveria parecer-se com uma 
governanta!
Eu diria que  mais importante comportar-se como uma retrucou Nataly num 
impulso, arrependendo-se imediatamente por sua ousadia.
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Para seu espanto, porm, a velha deu uma risada.
- Ento possui temperamento esquentado? timo! Aprecio as pessoas de
fibra. Pelo menos, costumam ter princpios. Tirou outro anel do dedo e 
entregou-o  bisneta. - Que tal este? Por ser grande a agrada mais?
- Claro, vov.  muito bonito!
- Maior do que o da sua me? Felicity sacudiu a cabea, numa negativa."
- Mame no usa esmeraldas. Diz que elas trazem m sorte.
- Ela deve saber, pois precisa de sorte mais do que ningum!
- Esticou uma das mos em direo  criana. - D-me as jias de volta, 
filha. Poder brincar com elas depois. Venha me visitar esta noite e 
traga tambm sua governanta, quero ficar de olho nela.
- Por qu?
"Sim, por qu?", repetiu Nataly, mentalmente.
- As pessoas no me enganam. Posso estar senil e enrugada, mas enxergo 
muito bem o que h em frente ao meu nariz.
A criana no entendeu, mas desistiu de fazer mais perguntas. Saindo da 
cama, foi dar a mo para a governanta.
- Vamos, srta. Lindsay. Quero almoar logo para depois irmos passear a 
cavalo.
- Diga adeus  sua bisav. Obediente, a menina virou-se para a cama.
- At logo, vov. Depois quero brincar com todas as suas jias.
- Veremos, veremos.
A menina puxou a governanta pela mo.
- Vamos rpido! Quero andar num cavalo bem grande e mostrar a papai que 
no tenho medo!
Depois de uma breve e um tanto desajeitada reverncia, Nataly saiu do 
quarto, soltando um suspiro de alvio. Nunca travara um dilogo to 
abertamente hostil com nenhuma pessoa!
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"Por que ela julga que no me pareo com uma governanta?", perguntou-se.
Compreendia que aparentava ser jovem demais, mas uma governanta para uma
criana da idade de Felicity no precisava ser nada idosa... O que ela
diria, caso algum lhe perguntasse a idade?
Contara apenas dezoito, mas j estivera em tantos lugares e enfrentara 
tantas situaes diferentes, que se julgava bem mais madura do que a 
mdia das moas de sua idade. Mas quem perceberia isso?
Quando subiram para o primeiro andar, constatou que ainda faltavam quinze 
minutos para o almoo ser servido.
- Espere por mim aqui, Felicity. vou pedir autorizao a seu pai para que 
voc possa montar o cavalo que viu essa manh.
- No, no pergunte! Ele pode dizer "no".
- Mas pode dizer "sim" tambm. Nesse caso no precisamos nos preocupar.
- Mas voc vai pedir com jeitinho, no vai?
- Prometo que sim - concordou rindo, deliciada.
- Ficarei brincando na minha casinha de bonecas.
Certificando-se de que o protetor da lareira estava firmemente
colocado, Nataly desceu para o hall. Embora se sentisse um pouco nervosa 
por ter de falar com o conde novamente, tinha plena conscincia de que 
no poderia arcar com a responsabilidade de deixar a criana andar num 
cavalo to grande.
"Caso ele no permita, pedirei que providencie um pnei o mais rpido 
possvel."
".
Dois lacaios de libr verde e lils estavam postados, no hall. - Podem me 
informar onde encontro o conde? - Na biblioteca, milady - respondeu um 
deles, abrindo-lhe a porta com uma reverncia. Entrou timidamente, com as 
faces ruborizadas. Durante toda
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a vida, nas viagens que fizera com o pai, encontrara tantas pessoas
diferentes, e nunca se inibira diante de ningum. Por que se sentia
assim, to envergonhada, na presena daquele nobre ingls?
Quando ouviu a porta fechar-se atrs de si, caminhou apressadamente at a 
escrivaninha, onde o conde examinava alguns papis.
Ele no se levantou, mas fitou-a nos olhos com expresso carrancuda, que 
a deixou ainda mais embaraada.
- Eu... peo desculpas por perturb-lo, novamente, senhor, mas Felicity 
deseja andar em um dos cavalos. E, apesar de o cavalario ter dito que se 
trata de um animal manso, pensei que seria melhor pedir sua permisso.
- Por qu?
Indignada com a rudeza da pergunta, Nataly ergueu a cabea, com altivez.
- Porque Felicity est sob minha responsabilidade. At hoje, sua filha s 
andou em pneis, e tive dvidas em autoriz-la a cavalgar num animal de 
grande porte.
- Creio que cabe a voc resolver essa questo sozinha, em vez de recorrer 
a mim. Muito bem, srta. Lindsay, se minha filha deseja andar a cavalo, 
no vejo por que proibi-la. Lembre-se de que a maioria dos aprendizes de 
hipismo leva tombos, e a melhor coisa a fazer  montar de novo, 
imediatamente depois da queda.
- Sei disso, senhor. De qualquer forma, Felicity tem apenas oito anos e, 
por mais que domine bem um cavalo, deveria ter um animal de tamanho 
adequado.
O conde a encarou com firmeza, como se a desafiasse. Por alguns 
instantes, os dois pareciam travar uma batalha silenciosa. Por fim, ele 
capitulou:
- Est bem, srta. Lindsay. Providenciarei um pnei para ela. Enquanto 
isso, deixe-a usar os animais do estbulo. Pea a Jackson para lhe 
arranjar um animal dcil.
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- Agradeo-lhe, senhor conde.
Sem acrescentar nenhuma palavra, retirou-se e fechou a porta da 
biblioteca. Assim que se viu no hall de mrmore, suspirou, aliviada,
imaginando por quanto tempo ainda conseguiria suportar aquela guerra
declarada.
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CAPITULO IV
- J sou grande, vou andar a cavalo! - dizia Felicity pulando excitada
com a novidade, enquanto subiam para mudar de roupa.
"S espero que no sofra nenhum acidente", pensou Nataly tendo a 
desagradvel impresso de que, caso isso acontecesse, somente ela se 
preocuparia com a sorte da criana!
Ao chegarem no topo da escada, surpreendeu Jardine, a empregada 
particular de lady Rothwell, saindo de seu quarto. En baraada, a velha
passou por elas inclinando a cabea e descendo sorrateiramente a escada.
O que estaria fazendo ali, e por que tomara aquela atitude suspeita?
Entrando no aposento, decifrou o enigma. Seus bas j tinham sido 
desfeitos, e os armrios, de portas abertas, exibiam roupa e mais
roupas. Eram tantos os vestidos, que alguns ficaram pendurados dos lados
do guarda-roupa. Mal podia acreditar que tudo aquilo lhe pertencia!
Nesse instante Jeannie entrou, preocupada.
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- Infelizmente, no conseguimos colocar todas as roupas aqui, srta.
Lindsay; o resto est guardado no quarto vizinho a este.
- Obrigada. H realmente muita coisa, no?
- Nunca vi vestidos to lindos, milady... E que cores maravilhosas!
Nataly foi para o-outro quarto, seguida pela criada. Era um aposento 
menor que, embora desocupado no momento, deveria ter sido destinado a 
alguma empregada do primeiro andar.
Sobre a cama havia chapus e boinas de todas as cores e tamanhos, e ao 
v-los ela precisou reprimir um sorriso. Quando imaginaria que, aps ter 
passado semanas em Tangier, usando os severos camisoles da Misso, seria 
dona de to sofisticada coleo de vestidos e acessrios?
Parecia enxoval de alguma futura duquesa! E, na verdade, pertencera a uma 
nobre. embora no devesse revelar a ningum do castelo que tudo aquilo 
lhe tinha sido doado pela condessa.
Do contrrio, os empregados ficariam chocados, e o conde seria capaz at 
de demiti-la.
"Deixe que pensem que j fui rica algum dia, mas que agora perdi a 
fortuna e sou obrigada a trabalhar como governanta para sobreviver."
Felicity irrompeu pelo quarto, impaciente.
- Onde est minha roupa de montaria? Quero me vestir Para andar a cavalo!
H alguma roupa de montaria entre minhas coisas? Perguntou Nataly  
criada, enquanto se dirigiam para o quarto da menina.
Oh, sim, milady, e um chapu tambm.
- timo.
Encontrou uma srie de trajes de montaria para Felicity. Alguns, de 
tecido leve, prprios para o clima quente de Tangier, e
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outros, para meia-estao. Eram tantos, que no sabia qual escolher.
Jeannie sugeriu:
- H um traje mais novo que os outros. Parece ter sido feito de uma 
metade de saia para adulto.
- J posso cavalgar de lado - anunciou Felicity, triunfante,
- Sim, querida; mas, hoje,  melhor montar com uma perna de cada lado da 
sela, que  mais seguro.
Enquanto a criada vestia a menina, foi para seu quarto e surpreendeu-se 
ao ver seu traje de montaria. Era uma roupa discreta, em tons escuros, 
bem diferente das outras vestimentas da condessa.
Lembrava-se bem de quando sua me mandara confeccionar um traje como 
aquele, no melhor alfaiate da Inglaterra.
- No h ningum comparvel a Busvin. Devo cuidar muito bem desta roupa, 
pois nunca mais poderei me dar ao luxo de comprar outra! - dissera ela.
"Sem dvida,  muito elegante e, pelo menos no cavalo, estarei bem 
convencional, como uma governanta deve ser!", pensou Nataly, sorrindo 
consigo mesma.
Mirou-se no espelho, satisfeita com o resultado. A condessa devia ter 
aquela roupa desde os tempos em que morava ali no castelo, mas, como os 
trajes eram sempre parecidos uns com os outros, no haveria problema.
- Srta. Lindsay, vamos! - chamou Felicity do corredor, impaciente.
- J vou, j estou indo!
Nataly olhou em torno, procurando pelo chapu, e a criada entrou naquele 
instante.
- O chapu est aqui, milady.
- Obrigada - disse, observando que aquela pea, sobre os cabelos presos, 
lhe conferia um ar ainda mais distinto e respeitvel.
- As luvas, milady?
- Obrigada, Jeannie.
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Felizmente, a criada lhe entregara aquelas luvas, que deviam ser prprias
para montaria, pois eram diferentes das outras. Era capaz de ter escolhido
um par qualquer da gaveta.
- Estou esperando, srta. Lindsay. - Felicity entrou no quarto e sorriu. -
Est muito bonita. Pare de se olhar no espelho,
vamos!
Os animais as esperavam na frente da casa como Dawson rdenara, e Felicity
montou no cavalo preto que Jackson havia escolhido por sua docilidade.
Nataly recebeu um fogoso corcel escuro, com uma estrela branca na testa, 
que parecia bem treinado. Subiu na montaria com um sorriso nos lbios, 
imaginando como as pessoas dali reagiriam, se a tivessem visto montar 
elefantes, dromedrios e outros animais exticos durante as viagens com o 
pai.
Os cavalos rabes, muito fogosos e difceis de serem domados, eram os 
seus preferidos; adorava mont-los, dirigindo-os com firmeza at 
conseguir o pleno domnio sobre eles.
- O sr. Jackson acha que devo acompanh-las nesse primeiro dia de 
passeio, milady - disse o empregado, ao lhe entregar
as rdeas.
-  uma boa ideia.  importante que a condessa no sinta
medo,
- No tenho medo! - protestou Felicity na mesma hora.
- Sou tima cavaleira. Mon pre sempre dizia isso, apesar de
ficar aborrecido.
J haviam comeado a cavalgar, quando Nataly, no resistindo  
curiosidade, perguntou  criana:
- Por que ele ficava aborrecido por voc montar bem?
- Porque sou inglesa, e mame dizia que papai era o melhor cavaleiro da 
Inglaterra.
- Oh...
S esperava que Felicity no falasse do conde de Soisson na
Presena do pai ou da bisav!
Acomodou-se na sela, olhando a belssima paisagem em torno.
71
Os campos verdes, pontilhados por bosques e rvores, seguiam a perder de 
vista e, ao longe, carneiros pastavam pacificamente. Jeb, o empregado que
as acompanhava, informou que do outro lado do parque havia um grande
plat, onde poderiam galopar com segurana. Foram, trotando pelo caminho
de terra desviando-se dos galhos mais baixos das rvores e ouvindo apenas
o barulho dos cascos dos animais contra o cho. Felicity encantava-se com
os veadinhos que, assustados, fugiam  apro ximao deles.
- Quero brincar com os veadinhos!
- Eles so tmidos e ainda se assustam quando chegamos perto, mas tenho
certeza de que com o tempo se acostumaram.
 Quero ter um l no jardim.
Nataly lembrou-se de que todas as crianas querem um animalzinho em casa
e decidiu pedir ao conde para comprar cozinho de estimao. Felicity
iria adorar.
Mas no, era cedo demais para ficar pedindo coisas. Ele bem podia mudar 
de ideia de repente, mand-las embora!
Logo alcanaram o plat, e ao ver a garotinha galopando Nataly constatou 
que ela realmente sabia montar bem.
- Vamos apostar uma corrida? - perguntou a menina, os olhos brilhando de 
excitao.
- Tem certeza de que est bem segura na sela?
- Claro que estou! - garantiu, aoitando o cavalo e saindo. Nataly logo a
alcanou e correram at o fim do plat emparelhadas. Quando se viraram 
para voltar, notou que Jeb, que ficara do outro lado do campo, no 
estava mais s.
A princpio, temeu ser advertida por deixar Felicity correr daquela
maneira. Tranquilizou-se imediatamente, ao imaginar que, se ele vira a
filha cavalgando, j havia percebido que era tima cavaleira.
Galoparam em direo ao conde que, apesar de magnfico, num garanho 
negro e fogoso, permanecia carrancudo.
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- Veja, papai, sei andar num cavalo grande to bem quanto voc, no sei?
- Voc monta muito bem - disse  filha com secura, virando-se para a 
governanta em seguida. - Essa criana j est na idade de usar a sela de 
lado, no acha? No aprovo meninas que fingem ser meninos!
- No  questo de fingir, senhor. Achei que, como Felicity estava 
montando um cavalo pela primeira vez, assim seria mais seguro. Por outro 
lado, o estribo de uma sela de senhoras tambm seria muito grande para 
ela.
- J dei ordens a Jackson para comprar um pnei. Veja que no futuro 
Felicity monte de lado, srta. Lindsay. No costumo aceitar essas 
modernidades em relao s mulheres! - advertiu ele, saindo a galope, sem 
esperar resposta.
- Voc no chorou! Quando papai falava dessa maneira com mame, ela 
chorava.
"Pois no foi sem razo que ela fugiu daqui", pensou Nataly, furiosa.
- Acho que est na hora de voltarmos para casa, querida. Quem sabe Jeb 
nos mostre um caminho novo para a volta.
- Oh, sim, milady. Cortando pelo bosque h uma trilha que vai dar do 
outro lado do castelo.
Altos pinheiros e vrias rvores frondosas circundavam o caminho por onde 
seguiram. Nataly estava maravilhada com toda aquela imensido verde, que 
lhe trazia agradveis lembranas da infncia. Mesmo tendo morado muitos
anos fora, sempre sonhara com lugares assim.
Gostava de ouvir o canto dos pssaros, de sentir os raios de sol se 
filtrando pelos galhos das rvores e desenhando delicados mosaicos de luz 
no cho.  medida que o bosque se abria para o campo, surgiam os gramados 
e as flores, como se caminhassem num cenrio de conto de fadas.
"Que lindo! Todos deveriam ser felizes num lugar assim..."
Em seguida, olhou para o castelo, que parecia misterioso e
73
ameaador como seu proprietrio. Apesar disso, faria tudo o que fosse 
possvel para tornar Felicity uma criana feliz. S de v-la sorrindo 
daquela maneira, montada no cavalo, j se sentia recompensada.
Embora Jeb se oferecesse para levar os cavalos para a cocheira, Nataly 
insistiu em ir at os estbulos para prolongarem um pouco mais o passeio.
- No se esquea de agradecer a Jackson - avisou a Felicity.
- Mas foi papai quem me deu permisso para montar!
- Mas Jackson escolheu e arreou o cavalo para voc, alm de ter mandado 
Jeb para nos mostrar o caminho. Por isso, voc deve lhe agradecer.
Felicity calou-se por um momento, pensativa.
- Mon pre nunca agradecia os criados da villa. Dizia que eram estpidos 
e ineficientes.
- Os criados se sentem bem quando lhes agradecemos. Quanto mais vem seu 
trabalho reconhecido, mais dispostos ficam.
A garota ouviu atentamente e ficou quieta; quando chegaram  cocheira, 
agradeceu Jackson com entusiasmo.
- A pequena condessa vai ganhar um pnei lindo - avisou o cavalario, 
radiante com a atitude da garota. - vou busc-lo hoje ou amanh.
- Quero um pnei grande.
- Ele  adequado para o seu tamanho e muito engraadinho!
- Olhou para a governanta, acrescentando: - Como foi o passeio, milady? 
Percebi que a senhorita est acostumada a montar.
- Diverti-me bastante, obrigada, Jackson. Monto desde pequena e por isso 
vou lhe fazer um pedido. Seria possvel voc me arranjar um cavalo um
pouco mais arisco? Prometo que saberei comand-lo muito bem.
- Pois no, milady - disse ele, sorrindo. - Amanh, selarei um cavalo 
mais rebelde, pode ficar tranquila.
Mais tarde, depois de terem tomado um ch fartamente acompanhado
74
de biscoitos e bolos, Nataly lembrou-se de que a velha condessa
desejava ver a bisneta.
Jeannie j vestira a garota de modo adequado, o que muito agradou a 
Nataly. Afinal a criada tinha um conhecimento maior sobre o que seria 
apropriado ou no para essas ocasies.
Difcil foi escolher, entre os vestidos que ganhara, um que fosse sbrio 
e elegante ao mesmo tempo. Quase todos eram confeccionados em Paris, 
chiques demais, de cores vivas, e muito caros.
Por fim, encontrou um de cetim verde-esuro, com corpete bordado de 
branco e um bolerinho do mesmo tecido. O vestido lhe assentou muito bem, 
valorizando-lhe as curvas esbeltas do corpo, ao mesmo tempo que 
contrastava com sua pele alva e realava o tom esverdeado de seus olhos.
Esperava que a viva no conversasse com ela. Quem sabe, com um pouco de 
sorte, nem precisasse entrar no quarto...
Mas suas esperanas foram logo dispersadas, pois, assim que a viu, a 
velha chamou-a:
- Entre, mocinha, quero ver que roupa est usando. Embaraada, aproximou-
se devagar. A velha condessa tirou
diversos anis e colares e deu-os a Felicity, com o claro intuito de 
deix-la entretida, e comentou:
- Muito elegante! Deve ter custado um bocado. Quem pagou por ele?
Rgida e ereta, apertou os lbios, sem encontrar uma resposta adequada. A 
viva continuou, no mesmo tom:
- H de convir comigo, mocinha, que eu, morando aqui no interior de 
Yorkshire, no posso deixar de ficar curiosa para saber como uma
governanta, que recebe um salrio nfimo, consegue se vestir com Worth,
de Paris!
Nataly, finalmente, compreendeu a presena de Jardine em seu quarto 
naquela manh, e respondeu, calma:
-  muito gentil de sua parte interessar-se por mim, senhora condessa.
75
- Ainda no respondeu  minha pergunta.
Mais uma vez, sua intuio alertou-a sobre o perigo de revelar que 
aquelas roupas haviam pertencido  condessa de Soisson. Pior ainda seria 
dizer que as ganhara de uma amiga.
- Tive necessidade de renovar meu guarda-roupa, depois de ter sido 
roubada em Tangier. Por sorte, obtive estes vestidos a preo acessvel.
Uma explicao em nada convincente, e era bvio que a viva no 
acreditara em suas palavras.
- Mas, como se diz, voc gosta de caprichar, srta. Lindsay! Espero que 
encontre plateia para suas performances.
Nataly no respondeu, limitando-se a observar a criana, que brincava com
as jias no cho.
- Devo deixar Felicity com a senhora e vir busc-la daqui a vinte 
minutos?
- Uma bela maneira de evitar perguntas embaraosas. Muito bem, srta. 
Lindsay, pode ir. Ficarei observando seus vestidos, um por um. Espero que 
no me decepcione!
- Espero que no, senhora condessa - ironizou, fazendo uma reverncia e 
retirando-se do quarto.
"To antiptica quanto o neto", pensou, enquanto descia a escada que dava 
para o hall.
O que faria nos prximos vinte minutos? Adoraria poder conhecer um pouco 
do castelo, e lembrou-se de que sua me lhe dissera que, na maioria das 
casas nobres da Inglaterra, havia um curador, responsvel pela 
organizao da biblioteca e pela conservao dos bens da famlia.
- H um curador no castelo, Dawson?
- Sim, claro, milady.
- Desejaria v-lo. Quem sabe ele me possa indicar alguns livros para eu 
mostrar  pequena condessa.
- Acompanhe-me, por favor, senhorita.
O mordomo passou reto pela porta da biblioteca, e dirigiu-se pelo 
corredor, para onde havia um escritrio amplo e espaoso,
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cujas paredes eram repletas de mapas e quadros antigos. Um senhor idoso, 
de cabelos brancos, sentado a uma escrivaninha enorme, atulhada de 
livros, ergueu a cabea ao ouvir o barulho de passos se aproximando.
- Este  o sr. Osborne, srta. Lindsay - anunciou Dawson.
- Ele a ajudar no que for possvel.
Nataly apertou-lhe a mo, explicando que queria alguns livros para lady 
Felicity. Depois que o mordomo saiu, pediu:
- O senhor tambm poderia me mostrar o castelo, qualquer dia desses? Como 
nunca morei na Inglaterra, nem fiquei hospedada em uma manso to grande, 
pode imaginar o quanto me fascinam essas construes!
Radiante, o sr. Osborne ajeitou os culos de aro fino na ponta do nariz e 
respondeu, sorridente:
- Assim que surgir uma oportunidade, mostrarei tudo o que desejar srta. 
Lindsay. Bem. Tenho aqui alguns livros de gravuras. Desconfio que a 
condessinha os apreciar.
Foram at a biblioteca, onde o curador lhe mostrou a estante de livros 
ilustrados de viagem. Nataly sabia que Felicity adoraria ver pinturas de 
Tangier e de outras partes de Marrocos. Tambm escolheu um de casas 
inglesas, mais um sobre pssaros da Inglaterra e outro sobre cavalos e 
pneis, sem dvida, o assunto predileto da garota.
- Era exatamente isso que eu estava procurando! O senhor faria a 
gentileza de, mais tarde, separar outros livros para a condessa, sr. 
Osborne? Lembre-se, h muito tempo ela no v a Inglaterra e precisa 
aprender muitas coisas sobre o pas.
-  maravilhoso t-la de volta, srta. Lindsay. O castelo nunca foi mais o 
mesmo depois que a condessa de Rothwell partiu.
- Imagino que tenha sido muito triste para todos.
- Especialmente para o conde. - O sr. Osborne baixou a voz. - No voltou 
a ser o mesmo...
Repentinamente, o velho voltou a falar alto, gesticulando:
- Sim, srta. Lindsay, procurarei outros livros e os enviarei
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para a sala de estudos do primeiro andar, hoje mesmo ou amanh.
Pela mudana de atitude do curador, Nataly compreendeu, sem virar para 
trs, que o conde entrara na biblioteca. Sentia no ar a hostilidade que o 
nobre nutria em relao a ela.
- Espero que no danifique os livros que est pegando, srta. Lindsay.
- Felicity e eu tomaremos cuidado. Alm destes, senhor, creio que 
precisarei de alguns livros didticos, alm de lpis, canetas e outras 
coisas necessrias aos estudos dela.
- No os trouxe com voc?
- No.
- Estranho que uma governanta no tenha esse tipo de material.
- Posso lhe entregar uma lista do que  preciso comprar?
- disse, com a cabea erguida, desafiadoramente, tendo a impresso de que 
o conde se divertia com aquela situao.
- Claro que sim, srta. Lindsay.
- Obrigada.
Depois de fazer uma breve reverncia, retirou-se, rodando a saia verde 
num movimento brusco, carregando os livros que o sr. Osborne lhe dera.
Quando foi buscar Felicity no quarto da velha condessa, a menina estava 
com os dedos, braos e pescoo forrados de jias. Correu para a 
governanta, gritando:
- Olha como estou bonita com todas essas jias!
- O que faria com elas? - perguntou a bisav.
- Eu as venderia para comprar um monte de cavalos!
A velha riu, desanuviando um pouco a severidade do rosto enrugado.
- Mas no poderia usar cavalos nos dedos, ou no pescoo.
 - Acho que se a  gente  bonita acaba ganhando pulseiras e colares 
como estes. Mon pre dava muitas jias a mame.
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Nataly prendeu a respirao, enquanto a viva dizia, sarcstica:
-  melhor no deixar meu neto ouvi-la dizer essas bobagens.
Depois de se retirarem para o quarto de brinquedos, onde o fogo crepitava 
convidativamente na lareira, Nataly decidiu que j era o momento de 
conversar mais seriamente com a garota sobre aquele assunto.
- Escute, Felicity, quero que voc me prometa que no mencionar o nome 
do conde de Soisson a ningum. No fale dele para sua bisav, nem para 
seu pai, e, muito menos, para os empregados, entendeu?
- Papai o odeia. Lembro que ele o chamava de "francs sujo", e mon pre 
dizia que papai era um "ingls metido a besta"!
- Felicity! No deve repetir essas coisas! O que aconteceu quando voc 
estava em Tangier no  importante!
- Papai fazia mame chorar. Ela chorou, chorou, da ns fomos embora. Era 
gostoso viver no calor, s que mon pre no gostava de mim.
Nataly suspirou.
- Mame no me deixava falar de papai na frente de mon pre, e agora no 
posso falar de mon pre aqui! Acho isso uma bobagem!
- Concordo, querida. No entanto, se voc quiser ser feliz aqui e no 
deixar seu pai zangado, dever se esforar para fazer os outros felizes.
- E eu posso fazer os outros felizes?
- Claro que pode. As pessoas so infelizes quando no tm amor. Quando 
voc mostrava a sua me que a amava deixava-a feliz. Agora, deve amar seu 
pai.
- Ele no me ama.
- Isso no  verdade, querida. Creio que, l no fundo do corao, ele a 
ama muito -respondeu com sinceridade. - s
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vezes, as pessoas so tmidas e escondem seus sentimentos. Cabe a ns
ajud-las a agir com naturalidade, arrancando demons traes de afeto.
- Arrancar? com espada?
- No com armas de verdade, querida, mas com as armas do carinho. Se voc
sempre sorrir e for boazinha e cordata, conseguir vencer todas as
barreiras e fazer com que todos a amem tambm.
- Verdade?  divertido!
- Ento, vamos combinar um jogo, s ns duas. Voc tentar fazer seu pai 
rir at descobrir que ele a ama. Da, ser recompensada!
- Combinado!
Olhando para a menina, to frgil e desamparada no meio da queles 
adultos, ajoelhou-se e abraou-a. Afinal, enquanto o con de, ela e a 
viva ficavam promovendo briguinhas e hostilidades entre si, quem mais
sofria era Felicity!
- O mais importante, querida,  que seja feliz neste castelo, com todos 
estes cavalos esplndidos e o pnei para montar. No se esquea, se voc 
for feliz, deixar muitas pessoas felizes, tambm.
Num impulso, a garota tambm a enlaou pelo pescoo.
- Eu a amo muito, srta. Lindsay, e fico contente por voc estar aqui 
comigo. Prometa que. Prometa que no vai embora, nem me deixar sozinha.
Aquelas palavras, mais que um apelo, eram o grito de uma criana, cuja
segurana fora perturbada mais de uma vez.
- Eu quero ficar com voc, querida, por isso temos de fazer com que seu 
pai goste de nos ter aqui.
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CAPITULO V
Durante os seis dias seguintes, as coisas transcorreram tranquilamente
no Castelo Rothwell. O conde partira de maneira inesperada, e os
empregados mostravam-se mais descontrados, agradveis em relao 
pequena condessa e sua governanta.  O cozinheiro-chefe enviava pratos 
especiais a Felicity, e NaBaly nunca provara comida to deliciosa e 
preparada com tanto Requinte. Intuitivamente, reconhecia que eram pratos
franceses, apesar de, em Tangier, nunca t-los experimentado. Teria o 
fchefe aprendido aqueles pratos antes ou depois de a condessa ter Rugido 
dali?
Apesar de curiosa sobre o passado, esforava-se para no fazer perguntas, 
nem suscitar comentrios com os outros empregados da casa.
Ocasionalmente, lembrava  criana que no deveria tocar no nome do conde
de Soisson, nem no da me, se fosse possivel. Embora considerasse tal
pedido injusto para com a inocncia da garota, era prefervel fazer
isso a ter que suportar alguma atitude explosiva do conde.
Continuava com a sensao de que era vigiada pela velha condessa de 
Rothwell, que nunca perdia uma oportunidade de fazer comentrios 
sarcsticos, e cheios de insinuaes.
No dia anterior, quando levara Felicity para v-la, a viva a observara 
com olhos apertados e perguntara, atenta  sua reao:
- O que voc faz srta. Lindsay, quando no h cavalheiros para admirar
suas belas roupas?
- Felicity e eu temos estado muito ocupadas, senhora condessa. Exploramos 
o castelo, os jardins, e agora pretendemos conhecer todo o Distrito.
Nataly preferia dar respostas delicadas s impertinentes perguntas da 
velha, que ficava desarmada e se calava. No entanto, sabia que Jardine j 
tinha dado  patroa uma descrio detalhada do seu guarda-roupa.
Por outro lado, no havia dvidas de que a condessa comeava a gostar 
muito da bisneta, e que Felicity adorava ir at seu quarto para brincar 
com as jias.
Uma vez, a velha ordenara a Jardine que fosse buscar sua caixa de jias, 
um pequeno ba de madeira entalhada, onde havia uma profuso de rubis, 
esmeraldas, safiras, pulseiras de diamantes, longos colares de prolas 
com braceletes e tiaras de diferentes pedras preciosas.
Felicity parecia ter entrado na caverna de Aladim. Colocava os colares em 
vrias voltas no pescoo, punha anis, pulseiras, e depois de muito pedir 
colocou tambm a tiara.
- Agora pareo a rainha Victoria! Algum dia, sentarei no trono, como ela.
- Primeiro, ter de encontrar um rei para se casar - comentou a bisav, 
rindo.
- Sabe, vov, na verdade eu gostaria mais de viver com um xeque no 
deserto, ou quem sabe com um chefe beduno? - A srta. Lindsay diz que 
eles possuem cavalos maravilhosos, e os seguidores que no os obedecem 
tm as cabeas cortadas!
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- Uma histria muito interessante, srta. Lindsay - disse a viva, 
olhando-a com frieza -, mas  aconselhvel restringir-se a fatos mais 
convencionais.
Nataly gostaria de responder que aquilo no era fico, mas parte da 
verdadeira histria que ela vivenciara no norte da frica.
- Seguirei seu conselho, senhora condessa.
Os melhores momentos do dia, entretanto, eram aqueles em que saam a 
cavalo pelo Distrito; galopando no plat e visitando recantos novos e 
bosques maravilhosos.
Felicity era cumprimentada entusiasticamente por empregados cultivadores 
da terra, que, apesar de curiosos para saber como a pequena retornara ao 
castelo, no ousavam fazer perguntas.
Tendo  disposio comida excelente, dormindo bem todas as noites e sem 
enfrentar contratempos, Nataly estava bem diferente da moa plida e 
esgotada que ali chegara dias atrs.
Recuperara o peso normal, embora continuasse esguia, e seus olhos 
pareciam brilhar, refletindo uma grande fora interior.
A ferida do ombro j cicatrizara e no havia mais necessidade de colocar 
bandagem, embora ainda houvesse uma grande marca no local. Sempre que a 
via, desejava ardentemente que a ferida logo se tornasse apenas um risco
branco, como lhe garantira o mdico de Tangier.
Alm do mais, aquele sinal lhe trazia  mente as horrveis lembranas do 
trgico assalto no deserto. Esforava-se para esquec-las e, como 
aconselhara a Felicity, pensar apenas no futuro.
Seu relacionamento com a criana, a cada dia, se intensificava. 
Apreciavam muito a companhia uma da outra, e Nataly tinha conscincia de 
que era o nico fator estvel e seguro na vida da garota, o nico elo de 
ligao entre o seu passado em Tangier e o presente, ali, na Inglaterra.
Olhou para Felicity, ocupada em brincar com as bonecas, e sorriu, 
refletindo que, sem dvida, ainda conseguiria ficar no
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Castelo Rothwell por algum tempo, pois o conde no tinha motivos para 
mand-la embora.
- Srta. Lindsay!  to excitante! No sabe o que vai acontecer! - Jeannie 
irrompeu-quarto adentro, as faces afogueadas e os olhos brilhantes de
ansiedade.
Nataly fitou-a, surpresa, e sorriu.
- O qu?
- No vai acreditar, senhorita, mas Sua Alteza Real, o prncipe de Gales,
vir jantar aqui amanh  noite!
- Verdade?
- Sim. O conde acaba de chegar e informou ao sr. Dawson que haver uma 
festa para catorze pessoas!
- Quem mais vir?
- Bem. Sua Alteza Real e,  claro, a sra. Keppel, que esto hospedados no 
castelo do marqus e da marquesa de Doncaster. O conde ordenou tambm que 
o sr. Osborne leve todos os convidados para conhecer as dependncias do 
castelo, depois do jantar!
- O rei vem nos visitar? - perguntou Felicity, os olhos arregalados.
- No, querida. Embora o prncipe de Gales, um dia, v se tornar rei... - 
respondeu Nataly, lembrando-se de que o prncipe estava naquela posio 
h anos, e a rainha Victoria, apesar de ter celebrado seu jubileu de 
diamantes h pouco, aparentava dispor de sade para governar durante 
muitos anos ainda.
Jeannie continuou, animada:
- Trs pessoas ficaro hospedadas aqui, srta. Lindsay: um cavalheiro, que 
no conheo, o marqus e a marquesa de Wick. Oh, ela  to linda, j 
esteve aqui antes. Ser timo ver um pouco de movimento nesta casa, tudo 
est sempre to parado. Antigamente, davam-se festas, recepes, mas 
agora.
Realmente, j notara que o conde vivia como um eremita ali
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em Rothwell, sem receber ningum e passando a maior parte do dia s.
- Se for  janela do primeiro andar, srta. Lindsay, poder assistir  
chegada do prncipe conosco. Soubemos que a sra. Keppel  muito atraente.
Nataly olhou-a com um ar de censura, sabendo que a jovem criada era capaz 
de fazer algum comentrio indiscreto sobre a favorita do prncipe, na 
frente de Felicity. Mas a moa estava to excitada, que nem notou.
- Isto no significa que no preferiria ver a princesa Alexandra, cuja 
beleza  proclamada por toda Inglaterra. Mas a sra. Keppel deve ser to 
bonita quanto ela! Pelo menos,  o que o prncipe acha. - disse ela, 
caindo na risada, demonstrando que os casos de amor do prncipe de Gales 
eram amplamente discutidos na ala dos criados.
Mais tarde, enquanto Felicity brincava com as jias da bisav, a viva 
comentou, sarcstica:
- Suponho que voc esteja to excitada quanto o resto da casa, com a 
visita de um prncipe de verdade!
- Ele ser rei algum dia, vov!
- Quando for velho demais para aproveitar! - replicou a condessa, 
maldosa. - Mas ele tem meios para passar o tempo. Pelo que ouvi dizer, 
est apaixonado pela sra. Keppel como se fosse um adolescente!
Nataly retraiu-se, julgando aquele tipo de comentrio pouco adequado para 
se fazer a uma garota da idade de Felicity. Mas, felizmente, ela estava 
entretida com as jias, e nada disse.
- De qualquer modo, vai alegrar um pouco o ambiente continuou a velha. - 
Ser bom para meu neto ver gente e movimento. No quero dizer, com isto, 
que ele no se divirta. Pelo que soube, andou aprontando bastante, em 
suas viagens a Londres!
- Creio que est na hora de subirmos, condessa - atalhou
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a governanta. - Entregue as jias para sua vov, Felicity, e agradea-lhe 
pela ateno.
- Est querendo se fingir de chocada? Ora, esse ar de santinha no me
convence! Deve estar decepcionada por no poder descer amanh e mostrar o
quanto  atraente dentro de um daqueles vestidos de Worth...
- Ficarei contente em saber dos detalhes do jantar depois. Sinto muito
pela senhora, que no poder tomar seu lugar como anfitri do castelo.
Disse aquilo de maneira agradvel e, embora a viva soubesse muito bem 
que recebera uma alfinetada, como de costume, achou graa.
- Sou velha demais para essas coisas. Mas estou convicta de que se julga 
desperdiada num andar destinado a crianas, onde no h ningum do sexo 
masculino para admir-la, alm de um ursinho de pelcia!
Nataly riu, divertida com a comparao.
- O ursinho  bastante atraente, senhora condessa! "Bem, pelo menos, a 
ltima palavra foi minha", pensou de
pois, enquanto subia a escada com a menina.
A vinda do prncipe de Gales mudara o ritmo normal do castelo, e os 
criados corriam de um lado para outro, empenhados em colocar tudo em 
ordem. Quando, no dia seguinte, desceu para levar Felicity aos estbulos, 
havia um batalho de empregados pelas salas, limpando, polindo, 
esfregando e espanando.
"Como um daqueles gigantescos formigueiros da frica! - comparou 
divertida.
Ainda no vira o conde, mas o ambiente j estava mais tenso do que dias 
antes, como se sua personalidade fortssima e enigmtica pairasse e 
vibrasse pela casa.
Jackson cumprimentou-as efusivamente. Tambm estava animado com a visita 
do prncipe, e falava no assunto sem parar.
- Infelizmente no poderei lhes reservar um acompanhante
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esta manh, milady - avisou ele. - Espero que nos desculpe, mas Jeb 
precisar me ajudar a limpar os estbulos.
- Claro, claro.
Ela e a garota tomaram a rota costumeira pelo parque. O pnei de Felicity 
era um belo animal, muito dcil e rpido, a criana o amara de imediato. 
Nataly, por sua vez, agora montava Rollo, um magnfico corcel negro, 
muito arisco e bem jovem.
- Vamos apostar corrida, srta. Lindsay?
- Vamos. S que hoje deixarei voc largar antes, Rollo  muito rpido!
- Eu e Liblula vamos ganhar!
- Isso  o que eu quero ver!
Ao alcanarem o plat, o conde foi ao encontro delas, e Felicity mostrou-
se radiante ao v-lo.
- Papai, venha conosco! vou ganhar da srta. Lindsay e de voc tambm. 
Liblula  muito esperta e tenho certeza de que vencerei!
O conde ergueu uma sobrancelha, intrigado, e dirigiu-se a Nataly:
- Que novidade  essa?
- Sempre apostamos corrida, senhor, pois Felicity  uma grande cavaleira. 
Alis, teve a quem puxar.
Pela primeira vez, o viu sorrir.
-  um elogio?
- Na verdade,  um fato.
- Muito bem, vencerei vocs duas.
- Felicity deseja uma folga de alguns metros, e, vendo seu cavalo, tambm 
desejo o mesmo.
- Pois no, Felicity! Pode ir na frente, assim. Pronto! Agora voc, srta. 
Lindsay, coloque-se alguns metros atrs dela. timo.
O conde deu o grito de largada e Felicity partiu imediatamente, com uma 
graa e. destreza impressionantes.
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Nataly, atenta ao galope da menina e preocupada em no ultrapass-la, s 
depois de algum tempo notou que o conde fazia o mesmo. Deu-lhe um sorriso 
radiante para demonstrar que aprovava seu modo de agir.
Quando Felicity j ia bem  frente, aoitou Rollo, na tentativa de vencer 
o outro fogoso corcel. Mas o conde ultrapassou-a sem a menor dificuldade, 
e ao terminarem a corrida comentou:
- Qualquer dia desses, eu a desafiarei, - srta. Lindsay, mas sem lhe dar 
a dianteira!
- Aceitarei, com a condio de poder escolher minha montaria.
- Est me dizendo que sabe dominar Drago Verde? - indagou ele, 
referindo-se ao majestoso garanho que estava montando.
- Tenho certeza que sim. - Percebendo que o nobre a olhava com ceticismo, 
e at condescendncia, explicou: - J tive oportunidade de montar cavalos 
rabes muito mais ariscos do que esses, inclusive alguns ainda no haviam 
sido domados!
Ele ficou atnito mas, antes que pudesse fazer alguma pergunta, ela j se 
distanciara e se juntara a Felicity.
Dali a pouco, quando Nataly olhou para trs, viu que o nobre tomara outro 
caminho, que no o de casa. Teria o conde acreditado em suas palavras, ou 
pensara que ela inventara aquilo s para impression-lo?
- Foi gostoso apostar corrida com papai, no foi?
- Sim, muito gostoso. Agora, deve convid-lo para correr mais vezes.  
tarde, quando se encontrar com ele, diga-lhe o quanto est contente com a 
sua volta.
- Papai no voltou para me ver. S veio porque vai dar uma festa ao 
prncipe de Gales.
Naquelas palavras, havia uma nota de amargura, e Nataly sentiu compaixo 
pela menina. Ela prpria amara tanto seu pai! Se esquecesse o que 
ocorrera trs anos atrs, sem dvida o conde poderia amar a filha e 
demonstrar isso publicamente.
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Gostaria muito de compreender melhor sob quais circunstncias a condessa 
tinha ido embora do castelo, mas no seria correto obter essas 
informaes com os criados.
Era claro que o conde, por mais que a tivesse amado, agora a odiava do 
fundo do corao. E tambm a viva sentia o mesmo desprezo em relao  
ex-esposa do neto.
" como ler um livro do meio para o fim. Em funo do desconhecimento dos 
primeiros captulos, cada personagem parece reagir aos acontecimentos de 
maneira incompreensvel."
Naquela tarde, soube que o marqus e a marquesa de Wick haviam chegado, 
pois Jeannie s apareceu depois do ch, desculpando-se por no ter vindo 
servi-las.
- Estamos tendo muito trabalho l embaixo, milady. A srta. Jones est com 
uma dor de cabea daquelas, e me chamaram para ajudar!
- No se preocupe conosco, Jeannie. Sei que todos desejam deixar a casa 
brilhando para receber Sua Alteza.
-  verdade! No se esquea, milady, que virei cham-la para ver o 
prncipe, quando ele chegar com a comitiva.
- timo.
Lembrava-se de que o pai lhe falara, muitos anos atrs, sobre o costume 
de receber qualquer membro da realeza com muita formalidade assim como 
despedir-se de igual modo.
- Na Inglaterra, somente reis e prncipes merecem tal ateno, mas nos 
pases rabes, como voc sabe, filha, todo anfitrio, esteja ele numa 
tenda ou numa manso, recebe seus convidados  porta com todas as 
honrarias.
- E se o convidado elogia algum objeto, o anfitrio responde: " seu!", 
no  verdade, papai?
- Sim, querida. Quantas vezes j me ofereceram at mulheres!
- E voc teve de lev-las embora depois?
- Se isso acontecesse eu j teria um verdadeiro harm! dissera Gordon 
Lindsay, rindo alto. - No, querida, a gente
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aceita o presente de bom grado, mas depois, na hora de ir embora, 
"esquece-o" muito educadamente.
"Observarei se o conde, ao receber o prncipe,  to hospitaleiro quanto 
o xeque que acolheu papai e eu em sua magnfica tenda no meio do deserto 
e serviu olhos de carneiro assados especialmente para ns! "
Em seguida, imaginou que se a me estivesse viva e a visse espiando os 
acontecimentos pela janela junto com a criadagem, sem dvida, a 
recriminaria.
"Se eu fosse uma lady, voc teria razo, mame. Mas, como o conde deixou 
bem claro, no passo de uma governanta que  paga para trabalhar",
lamentou-se.
Levou Felicity at a cama, f-la rezar e deu-lhe um beijo de boa-noite.
- Acha que papai vai apostar corrida conosco amanh?
- Provavelmente no, querida. Ele ter de se dedicar aos convidados. Mas 
tenho certeza de que depois estar ansioso para ganhar de Liblula!  s 
voc convid-lo.
- Farei isso. Sabe, srta. Lindsay, acho que papai ficaria muito surpreso 
se eu o beijasse como beijo voc.
- Experimente. Talvez ele deseje fazer isso, mas tem receio de tomar a 
iniciativa.
- Oh. Eu gostaria muito de beijar papai! Ele  muito bonito, todas as 
empregadas dizem isso.
- Ento, beije-o com carinho, querida. Tenho certeza de que ele 
retribuir.
Apagou a luz da cabeceira e saiu na ponta dos ps, sabendo que a menina 
adormeceria imediatamente.
Como costumava fazer todas as noites, despiu-se e foi tomar um banho 
antes do jantar. Escolhia um dos confortveis robes que a condessa lhe 
dera, quando bateram  porta.
- Entre!
Ao ver a sra. Briercliffe entrar levou um susto. No esperava que a 
encarregada-chefe dos criados subisse at ali quando havia
90
tanto trabalho l embaixo! A senhora estava ofegante e visivelmente 
ansiosa.
- O conde deu ordens para a senhorita jantar l embaixo esta noite, 
milady.
- Jantar l embaixo?
- Ter de se apressar, senhorita. Sua Alteza Real vir dentro de uma 
hora!
- Mas...
-  por causa de lady Bellew, que mora num castelo a apenas dois 
quilmetros daqui. Um empregado acaba de chegar com a mensagem de que o
lorde vir s, pois a esposa pegou uma gripe fortssima e est de cama.
- E por que preciso descer?
- Se a senhorita no descer, sero treze pessoas  mesa, milady. E isso 
no pode acontecer!
- Quer dizer ento que o conde realmente me pediu para jantar com seus 
convidados? - perguntou sorrindo, mal podendo crer no que ouvia.
- Isso mesmo, senhorita, sei que ficar muito bonita dentro de um 
daqueles maravilhosos vestidos de noite que trouxe consigo! Pensei que a 
senhorita jamais teria a chance de us-los aqui.
- Eu tambm. Parece um sonho! Terei dificuldade para escolher um vestido, 
sra. Briercliffe! Ser que Jeannie pode me ajudar? Sei que a senhora est 
muito ocupada.
- Se estou! Mas, quando o conde me disse que a senhorita deveria se 
juntar aos convidados, fiz questo de lhe dar a notcia pessoalmente.
- Foi muita gentileza de sua parte. Sinto-me nas nuvens!
- No haver nenhuma lady to bonita como a senhorita  mesa!
- Ora, obrigada, sra. Briercliffe.
- Jeannie vir at aqui dentro de poucos minutos. E, por
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favor, no se atrase! Todos os convidados tero de estar reunidos na sala
de estar antes da chegada de Sua Alteza Real.
- No me atrasarei.
Comeou a escovar os cabelos que, tendo sido lavados na noite anterior, 
estavam macios, sedosos e brilhantes. Achou melhor no arriscar nenhum 
penteado novo e prendeu-os num chignon no alto da cabea. Colocava os 
ltimos grampos, quando a criada entrou, esbaforida.
- Oh, senhorita, no pude acreditar quando a sra. Briercliffe, me contou 
que iria descer para o jantar! Quer dizer que vai conversar com o 
prncipe! No  excitante? Fico com frio no estmago, s de imaginar!
- Tenho de escolher o vestido certo para esta noite, Jeannie. Ser que 
pode me ajudar?
Compenetrada, a moa considerou o pedido por um instante, e depois disse, 
triunfante:
- Sei de um maravilhoso, milady, com o qual ficar linda. Quando o tirei 
da mala achei-o semelhante a um romntico raio de lua.  exatamente o que 
este castelo precisa: um raio de luz do luar, do sol...
Jeannie foi at o quarto ao lado, onde ficavam os vestidos de noite, e 
dali a pouco voltou, segurando o cabide bem erguido, de modo a no roar 
o vestido no cho. Assim que o viu, Nataly reconheceu que de fato aquele 
era o mais belo de todos os trajes com os quais a condessa a presenteara.
De cor ouro-plido, quase do mesmo tom que seus cabelos, era inteiramente 
bordado com lantejoulas douradas em torno do decote de musselina de seda.
As lantejoulas desciam em arabescos pelo corpete, e as rendas, que 
enfeitavam o decote, formavam pequenas mangas, que lhe cobririam a 
cicatriz do ombro.
Quando a criada terminou de abotoar o vestido, percebeu que, felizmente, no
havia o menor sinal do ferimento, e que o modelo
92
lhe acentuava a cintura fina, dando-lhe uma graa at ento
desconhecida.
Parecia mesmo um raio de luz, e os bordados e lantejoulas dispensavam o
uso de jias. J haviam lhe dito uma vez que o prncipe gostava de ver
todas as mulheres com quem jantasse usando uma tiara.
"Bem, hoje ficar desapontado", pensou, quando a criada anunciou:
- Sabia que h dois arranjos de cabea acompanhando o vestido, srta. 
Lindsay?
- No, Jeannie, no sabia. Pode traz-los, por favor?
- So lindos, senhorita, bordados com as mesmas lantejoulas. Veja! - 
disse a criada, voltando num segundo, com a caixa.
Maravilhada, Nataly prendeu um de cada lado do chignon. Eram como 
florzinhas de diamantes, pois brilhavam muito  luz das velas.
Mirou-se no espelho, satisfeita. O arranjo na cabea dera um toque final 
de elegncia  sua aparncia.
- Est linda, senhorita, de verdade! Se a sra. Keppel sentir inveja, no 
ficarei surpresa!
- Creio que isso no acontecer - disse ela rindo, enquanto rodava em 
frente ao espelho. - Preciso ir, at logo!
- No se esquea de prestar ateno no prncipe para depois me contar 
todos os detalhes!
- Farei isso, Jeannie.
Desceu a escada principal com corao descompassado, extremamente 
excitada. Estava prestes a observar um modo de vida que somente conhecia 
atravs das descries da me.
Ela sempre lhe contava como eram os magnficos bailes que frequentava 
quando jovem, e como gostaria que Nataly tambm conhecesse esse meio 
social.
- Tenho receio, querida, que isso jamais acontea. Adoraria
93
apresent-la  corte algum dia e v-la valsar com algum rapaz bonito da 
sociedade.
"Posso no estar fazendo isso hoje, mame, mas me encontrarei com o 
prncipe de Gales, e voc deve ficar por perto, a fim de no permitir que 
eu cometa alguma gafe! "
Dawson estava perfilado no hall e arregalou os olhos de admirao ao v-
la.
- Est uma verdadeira princesa, senhorita!
- Obrigada, Dawson.
O mordomo adiantou-se em abrir a porta da sala de estar, um imenso salo 
que ela havia explorado rapidamente.
O aposento, normalmente austero, estava amenizado por centenas de flores 
espalhadas por todos os lados, e muitas velas dos candelabros de prata 
produziam uma luminosidade romntica e aconchegante.
Apreensiva, ficou parada  porta, como se estivesse entrando num palco, 
sem saber direito o papel a desempenhar. Havia dois homens do outro lado 
da sala, e Dawson anunciou, pomposo:
- Srta. Lindsay, senhor conde!
Por um instante, ela sentiu o cho lhe fugir dos ps, enquanto o sangue 
lhe subia s faces. O conde aproximou-se devagar, vestido de modo 
impecvel.
Era a primeira vez que o via em trajes de noite. Notou-lhe o talhe
esbelto e elegante, realado pela casaca repleta de condecoraes no
peito. Entretanto, seu rosto exibia uma expresso mais inatingvel e
enigmtica do que o normal.
- Sou-lhe muito grato por ter me livrado do que seria uma situao 
desastrosa, srta. Lindsay. Sua Alteza Real tem horror ao nmero treze. Na 
verdade, estou certo de que se recusaria em sentar-se  mesa, caso 
houvesse apenas treze pessoas!
- Fico contente por estar presente.
Dirigiram-se para o outro cavalheiro, que tinha um rosto bondoso e 
aparentava ser poucos anos mais velho que o conde.
94
 - Permita-me apresent-la a sir Christopher Hogarth, um
velho amigo meu. Christopher, esta  a srta. Lindsay, que nos
livrou da situao incmoda de minutos atrs.
- S posso lhe dizer, srta. Lindsay, que veio nos socorrer
no momento mais adequado! Deve ter cado do cu, como uma
estrela... Ou talvez seja o ltimo raio de sol deixado depois
do crepsculo!
Nataly no pde deixar de rir, lisonjeada, e o conde disse:
- Est muito potico, Christopher!
Aquilo no soou exatamente como um cumprimento, mas
antes que o outro pudesse responder Dawson abriu a porta novmente.
- O marqus e a marquesa de Wick. O casal, j de uma certa idade, era 
muito simptico, e a marquesa, muito atraente, apesar de seus quase 
cinquenta anos. Seus braos e pescoo faiscavam de diamantes, e usava uma 
tiara lindssima na cabea.
Depois das apresentaes, o conde consultou o relgio que havia sobre a 
lareira e avisou:
-  melhor eu ir tomar posio no hall. Doncaster, o cocheiro,  
extremamente pontual, e trar Sua Alteza na hora exata. - Serei o
anfitrio enquanto isso, Marlon - ofereceu-se Christopher. - Confesso que
no imagino tarefa mais agradvel. Ele devia conhecer a marquesa muito
bem, pois logo conversavam animadamente. Apesar disso, Nataly sabia que
ele mantinha os olhos sobre ela, o que a deixava menos tmida e mais
segura de si. Afinal, algum na festa a admirava! Agradeceu em
pensamentos  condessa por ter lhe dado todos aqueles vestidos.
Que desolao, caso tivesse sido convidada para o jantar e no pudesse
comparecer por falta de roupas adequadas! Pois bem, no recusaria
convites por muitos e muitos anos.
As lantejoulas faiscavam  luz das velas, ela se sentia vivendo um sonho. 
S esperava que o despertar no fosse amargo!
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O prncipe de Gales era forte, robusto, e estava de muito bom humor. Ao 
seu lado, fazendo-o rir e conversando com ele como um velho amigo, estava 
o embaixador de Portugal, marqus de Soveral, sempre includo em festas 
para as quais Sua Alteza era convidado.
A sra. Keppel, ligeiramente mais velha e robusta do que Nataly imaginara, 
era sem dvida bastante atraente e fascinante. O prncipe, de vez em 
quando, olhava-a, demonstrando muita afeio.
Todos beberam champanhe antes do jantar, e, quando sir Christopher 
conduziu Nataly pelo brao at a mesa, ela comentou, encantada.
- Sinto-me num conto de fadas!
- Nosso anfitrio me contou que voc  a governanta de sua filha, 
Felicity. Mal pude crer!
- No entendo sua surpresa, sou uma governanta muito eficiente!
- Posso imagin-la fazendo outras coisas de maneira muito melhor. Por que 
escolheu esconder-se num castelo como este?
- Gosto de ficar aqui. Na verdade, tenho at receio de ser mandada 
embora, pois no saberia para onde ir.
- Mas por que algum faria isso? Marlon deve estar contente em t-la em 
casa.
Preferiu no fazer nenhum comentrio, e ele continuou:
- Como velho amigo dele, sei que ficou tremendamente surpreso ao ver a 
filha de volta, depois de ter sido raptada daquela maneira acintosa, h 
trs anos.
- Raptada?
- No h outra palavra para descrever o que aconteceu. Nadine fugiu e 
levou a criana consigo, sem nenhuma explicao ou aviso.
- Oh. eu no sabia.
- Alis, Nadine era uma das mulheres mais lindas que conheci. Continua 
bonita?
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Nataly hesitou, no sabendo o quanto podia falar. Sir Christopher riu, 
avisando:
- No h necessidade de esconder nada de mim, srta. Lindsay. Marlon me 
contou que voc chegou de surpresa com Felicity, vinda de Tangier e que, 
como era a nica inglesa que havia por perto, Nadine a empregara como
governanta, bem diferente, devo dizer!
- E como deve ser uma governanta? As pessoas parecem estar sempre
reclamando de minha aparncia!
Fica surpresa? Vestida como est agora, ningum suspeitaria de que no  
uma bela profissional, convidada especialmente para uma festa de Sua 
Alteza Real!
J ouvira falar das belas profissionais, cujos retratos eram vendidos em 
cartes postais por toda Europa, e consideradas atrizes, apesar de serem 
ladies da sociedade. Por outro lado, no estava certa se sir Christopher 
lhe fizera um elogio.
- E ento? - perguntou ele. - Estou esperando por uma resposta. Como est
Nadine?
- Creio que seria um erro falar do passado - replicou ela em voz baixa, 
pois j haviam se sentado  mesa do banquete.
- Poderamos aborrecer o conde.
- Muito inteligente de sua parte. De qualquer forma, isso no a impede de
me contar sobre o seu passado. O que estava fazendo em Tangier?
- Bem, eu no estava l h muito tempo. Para falar a verdade, havia 
acabado de chegar de Moulay Jdriss.
com certeza, sir Christopher jamais ouvira falar daquela cidade sagrada, 
nos Montes Zerhoun, mas era melhor desviar o assunto. Para sua surpresa, 
porm, ele a fitou com curiosidade, exclamando:
- Lindsay! No v me dizer que  parente de Gordon Lindsay!
- Ele... ele era meu pai!
- No acredito! Ento como voc veio parar aqui?
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- Conheceu papai?
- Fui grande admirador dele e sempre li seus artigos e livros. Alm 
disso, minha me era Lindsay!
- Ela era. parente de papai?
- Sim, bem distante, mas era muito bem informada e educada. Atravs dela, 
pude ter contato com os artigos que seu pai escrevia na Revista 
Geogrfica Real.
- Gostava de l-los?
- Adorava!
- Papai terminou um livro sobre os brbaros pouco antes de falecer.
- Ele morreu?
- Foi morto por salteadores do deserto. Estvamos a caminho de Tangier, 
numa pequena caravana.  noite, os ladres nos atacaram e s eu 
sobrevivi.
- Como conseguiu?
- Feriram-me no ombro, desmaiei e julgaram-me morta tambm. Fui levada 
por gente caridosa at a Misso dos padres catlicos.
-  a histria mais fascinante que j ouvi!
Nataly olhou para o conde que,  cabeceira da mesa, parecia um verdadeiro 
rei. Sem saber a razo, pediu:
- Por favor, no diga nada a ningum... Promete? No devem saber quem 
sou, nem de onde vim.
- Est me dizendo que nosso anfitrio desconhece o fato de ser filha de 
Gordon Lindsay?
- Sim. Ele sabe apenas que sou uma governanta, escolhida pela me de 
Felicity.
Ela mesma no encontrava motivos suficientes para fazer segredo de seu 
passado. Talvez temesse que o conde a considerasse incompetente para 
ensinar Felicity; ou quem sabe no aprovasse ter como governanta uma 
mulher que tivera uma vida to fora dos padres normais.
- Por favor, sir Christopher, no lhe conte nada.
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- Claro, s que sob uma condio. Que voc me fale sobre as ltimas 
descobertas de seu pai, e sobre esse livro que ainda est para sair.
- Oh,  muito interessante!
Ficaram conversando animadamente durante bastante tempo, e s mais tarde 
Nataly lembrou-se de que deveria dar ateno ao cavalheiro sentado  sua 
esquerda. Um pouco frustrada, desejando continuar a conversa com sir 
Christopher, virou-se para o outro lado.
O vizinho, no entanto, parecia muito enlevado com a outra companheira, 
discorrendo sobre corridas de cavalos. Ao voltar a ateno para sir
Christopher percebeu, aliviada, que ele sorria. - O destino est do nosso
lado. Minha outra vizinha tambm est entretida com o parceiro, de modo 
que estamos livres para continuarmos nosso assunto! H anos que s ouo 
conversas entediantes durante os banquetes!
Falaram ainda sobre outros livros de Gordon Lindsay, suas ltimas 
descobertas em relao aos brbaros e suas opinies a respeito da 
ocupao francesa da Arglia e da Batalha de Isly.
Os olhos de Nataly brilhavam como duas estrelas, to teliz estava em 
poder debater aquelas ideias. Alguns convidados reparavam nela, 
perguntando ao conde quem era aquela moa belssima.
Mais tarde, ao voltarem para a sala de estar, ela notou que havia uma ou 
duas pessoas olhando-a com hostilidade. A sra. Keppel convidou-a a 
sentar-se ao seu lado.
- Soube que voc cuida da filha de nosso anfitrio. Ela se parece com a 
me, que era muito bonita, ou com o pai?
- Felicity  mais parecida com o pai.
- Ele tambm  muito bonito... mas  uma pena que a criana no seja um 
menino.
- Por qu?
-  Como as coisas esto, no h chances de ele se casar novamente, e  
lgico que o conde desejaria um herdeiro.
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- Sim, claro. No havia pensado nisso.
- Mas, sem dvida, este  o lugar mais maravilhoso em que uma criana 
poderia crescer, no acha? Estou ansiosa para explorar o castelo. Sua 
Alteza Real est particularmente interessado em ver a biblioteca.
Naquele instante, o conde anunciou que o curador estava no hall,  
disposio dos convidados que desejassem visitar o Castelo Rothwell.
- Quem preferir, poder permanecer na sala de estar, jogando cartas ou 
xadrez.
- Eu, pessoalmente, preferiria conversar com voc, srta. Lindsay - disse 
sir Christopher.
- No estou bem certa se devo ir ou ficar.
- Como assim?
- Fui chamada apenas para completar catorze pessoas  mesa, e creio que 
agora no h mais necessidade de minha presena.
- No que me concerne h necessidade, sim! No tenho a menor inteno de 
deix-la escapar. Por isso, sente-se aqui no sof e vamos continuar nossa 
conversa.
- J esteve na frica, sir Christopher?
- Muitas vezes, sempre em caadas. Nunca nas partes que voc e seu pai 
estudaram.
O assunto fluiu to agradvel que, quando a comitiva voltou do passeio,
parecia no haver se passado mais do que cinco minutos.
O marqus de Doncaster anunciou:
- Creio que est na hora de irmos, Marlon, pois Sua Alteza voltar a 
Londres amanh cedo.
Todos se despediram cerimoniosamente e, quando Nataly fez reverncia ao 
prncipe, este falou:
- Voc  muito bonita, querida, e se algum dia for a Londres ser uma 
sensao! No se esquea, ser bem recebida na Casa Malborough.
100
- Obrigada, Alteza - disse ela, lisonjeada com aquela despedida, to 
especial e fora do comum.
Enquanto o conde acompanhava a comitiva real at a entrada principal do 
castelo, Nataly considerou que seria sensato retirar-se tambm.
- Devo ir, agora - disse a sir Christopher. - Por favor, mantenha sua 
promessa!
- Eu jamais quebro uma promessa. E ser com prazer que
aguardarei v-la amanh, quando poder me falar mais sobre
seu pai. Alm disso, voc percebeu que, embora distantes, somos
parentes?
- Sim, sem dvida,  uma coincidncia muito Interessante!
Jamais poderia imagin-la!
Despediu-se rapidamente do marqus e da marquesa de Wick e apressou-se em 
subir para o quarto, antes que sir Christopher a impedisse e iniciasse um 
novo assunto.
Quando alcanou o primeiro andar, sentia-se extremamente feliz. Jamais 
passara uma noite to excitante e diferente!
- Foi maravilhosa, maravilhosa! - disse, com voz alta. Obrigada, meu 
Deus, por isso ter acontecido!
101
CAPITULO VI
Nataly dormia profundamente, quando escutou a porta de seu quarto se 
abrir. Seria hora de levantar-se?
Abriu os olhos e viu Jeannie segurando uma vela, o uniforme meio 
amassado, a touca branca deixando escapar algumas mechas de cabelos em 
desalinho.
- Desculpe acord-la, srta. Lindsay!
- O que aconteceu?
- Vim lhe pedir algumas bandagens emprestadas.
- O que foi? Quem se machucou?
- A marquesa, senhorita. Ela se cortou na mo e, como sei que possui 
bandagens, achei mais rpido vir at aqui, do que descer para acordar a 
sra. Briercliffe.
- Fez bem.
- Posso peg-las? Esto naquela gaveta da penteadeira, no ?
- Como a marquesa se cortou?
- com um copo, e a mo dela est sangrando muito!
-  melhor voc lavar bem a rea, antes de... Espere, deixe
102
que eu mesma vou... - disse, num impulso, sabendo que tinha muito mais
experincia em bandagens do que Jeannie. Afinal, durante as viagens que 
fizera com o pai, cuidara de muitos enfermos e feridos.
A empregada soltou um suspiro de alvio.
- Fico-lhe muito grata, milady... Desculpe o transtorno.
- Imagine!
Saiu da cama e, rapidamente, vestiu o difano neglig de chiffon e rendas 
que a condessa lhe dera, acompanhando a criada pelo corredor.
Dirigiram-se ao ltimo andar e depois desceram por outra escada, caminho 
que, segundo Jeannie, era o mais rpido. Nataly percebeu que estavam na 
ala onde os criados dormiam quando havia hspedes na casa. Assim ficavam 
mais prximos s visitas, e podiam atend-las prontamente.
Logo alcanaram o corredor largo e acarpetado, onde ficavam os quartos em 
que Felicity e ela haviam dormido na primeira noite.
Pouco depois Jeannie batia  uma porta de carvalho. A marquesa estava no 
mesmo quarto em que Felicity dormira, com a imensa cama com dossel de 
brocado.
A elegante senhora estava s, e Nataly imaginou que o marqus dormia no 
quarto vizinho, onde ela prpria ficara da primeira vez.
- Trouxe a srta. Lindsay, marquesa. Ela sabe fazer curativos melhor do 
que eu.
-  muita gentileza de sua parte, srta. Lindsay - disse ela, com a mo 
enfaixada com uma toalha, j toda manchada de sangue. - Parece que minha 
criada particular tomou uma poo para dormir; ningum consegue acord-
la! Sinto muito importun-la.
- Tenho bastante experincia com bandagens, marquesa. Como a senhora se 
cortou?
103
- Fui pegar um copo c'gua no criado-mudo e quebrei-o sem querer contra 
este candelabro.
Nataly desenrolou a toalha com cuidado e viu diversos cortes nos dedos e 
na parte interna da mo, um deles bastante profundo.
Pediu a Jeannie que fosse buscar uma bacia de gua e lavou a mo da 
marquesa com cuidado antes de passar algodes embebidos em linimento nos
cortes. Em seguida, colocou a bandagem com rapidez e eficincia.
- Ficou timo, srta. Lindsay! To bom quanto qualquer enfermeira faria!
- Temo que ainda doera um pouco. Tente no mexer a mo. Assim no voltar 
a sangrar.
- No compreendo como pude ser to descuidada! - disse ela, suspirando, 
constrangida.
Jeannie, depois de ter levado a bacia, esperava ao lado, pacientemente. 
Era bvio que estava morrendo de sono, e Nataly disse:
- Pode ir deitar-se, Jeannie. Precisa acordar cedo. Eu mesma servirei um 
copo de gua para a marquesa.
- Obrigada, milady. Deixarei um candelabro ao p da escada.
Nataly foi at a jarra, que ficava numa mesinha ao lado da pia, e encheu 
um copo com gua, oferecendo-o  nobre, que o bebeu com vontade.
- Muito obrigada, srta. Lindsay.
- Na verdade, depois do susto por que passou, eu deveria lhe oferecer um 
ch, mas, fatalmente, me perderia pelos corredores do castelo!
- Oh, j estou mais calma, graas a Deus. Apenas no me conformo com 
minha falta de cuidado!
- Vai se sentir melhor amanh.
Pegou o copo vazio e levou-o de volta para a mesinha, a fim
104
de evitar outro acidente. Apagou a vela do quarto e, pela luz do 
corredor, guiou-se at a porta.
- Boa noite.
- Boa noite, srta. Lindsay. E muito obrigada.
Nataly saiu pelo corredor mal iluminado, voltando pelo mesmo caminho que 
viera com a criada. Ainda no havia alcanado a escada quando, de 
repente, a porta do quarto em frente se abriu com violncia.
Sentiu o corao dar um pulo, ao reconhecer a silhueta do conde. Ele 
usava um robe comprido at o cho e parecia ter acabado de acordar.
- O que est acontecendo? - perguntou, com voz rspida.
- O que est fazendo aqui, srta. Lindsay?
Nataly tentou responder, mas no houve tempo, pois ele continuou, 
furioso:
- E preciso perguntar? Observei o modo como se comportou durante e depois 
do jantar, mas no podia acreditar que se desviaria do objetivo principal 
to facilmente.
Ela arregalou os olhos, atnita, sem fazer ideia do que o nobre lhe 
falava.
Como se tivesse perdido totalmente o controle, ele esticou o brao, 
agarrou-a pelos ombros e puxou-a para dentro do quarto.
com o canto dos olhos, ela viu um candelabro aceso ao lado de uma 
gigantesca cama com dossel cor de vinho, sentindo os dedos do conde lhe 
apertarem os ombros dolorosamente.
Jamais vira um homem to furioso e to fora de si em toda sua vida, e 
atemorizada percebeu que a voz lhe fugia da garganta.
- Sei muito bem por que minha mulher mandou-a para c, srta. Lindsay. 
Nadine pensou que voc pudesse me seduzir, a ponto de convencer-me a lhe 
dar o divrcio, no ? Mas no esperava que se comportasse como uma 
prostituta com um de meus hspedes.
- O que... o que est dizendo? Como ousa.
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- Pensa que realmente acreditei na sbita mudana de atitude de minha
esposa, mandando minha filha de volta, assim, sem mais nem menos? Julga
que eu seja idiota o suficiente para no perceber o que havia por trs de 
seus belos e grandes olhos?
Ele deu uma risada sarcstica.
- S um cego e surdo acreditaria que voc  uma governanta! Quem j viu 
uma subalterna usando vestidos de Worth, cada um deles custando muito 
mais do que um ms inteiro de salrio?
- P. posso... posso explicar..
- No h nada para explicar! Volte j para minha mulher e diga-lhe que,
infelizmente, no foi capaz de cumprir sua misso. E fique sabendo que, 
no que me concerne, pode levar Felicity consigo!
- No! No! No posso. fazer isso!
- Por que no? Est com tanta vontade assim de continuar aqui?
Fitou-a longamente, cheio de desprezo, e prosseguiu:
- Imagino como ficou desapontada ao descobrir que eu no cederia aos seus 
encantos. Mas agora deve estar satisfeita. Marcou um belo ponto esta 
noite! Espero que tenha se divertido bastante.
- Tem de me escutar. por favor. por favor, deixe-me explicar.
- No tenho inteno de ouvir suas mentiras.
Vendo-a trmula e assustada, com o rosto muito plido e os cabelos em 
desalinho, ele ficou ainda mais irritado.
- Talvez seja cruel de minha parte mand-la embora simplesmente. Voc 
veio para c com um nico intento. No pretendo desapont-la, minha cara. 
A no ser que j tenha se fartado de fazer amor esta noite!
Nataly emudeceu diante dessas palavras, que pareciam vibrar, speras, 
pelo quarto.
106
De repente, o conde a abraou com fora, possuindo seus lbios, 
avidamente.
Embora tentasse reagir, ela se sentia fraca e desamparada, sufocada por
aquele abrao possessivo. Soltou um grito de puro horror, ao v-lo
carregando-a e jogando-a na cama. No podia crer no que estava 
acontecendo!
- Por favor. por favor. est me assustando. No pode fazer isso comigo.
Tentou empurr-lo com as duas mos, dominada pelo terror, e conseguiu se 
sentar. Mas logo o conde saltou sobre ela, os dedos fortes se enterrando 
em sua carne macia, sobre a cicatriz recm-curada...
Uma dor lancinante percorreu-lhe o corpo, como se tivesse sido esfaqueada 
mais uma vez. Num grito abafado de agonia e sofrimento, despencou para o 
vazio.
Voltando  conscincia, abriu os olhos e percebeu que o quarto estava  
imerso em completa escurido. Seus lbios soltaram um gemido de dor, e
ela se viu incapaz de mover um msculo.
Depois, uma profunda voz masculina falou:
- Est tudo bem, ningum nem nada a machucar. V dormir. Era uma ordem 
fcil de obedecer, e Nataly tornou a fechar os olhos, tranquilizada.
Quando acordou novamente, j era dia, e algum abria as cortinas de seu 
quarto, permitindo que os raios de sol alcanassem a cama e lhe 
iluminassem o rosto.
- Est tudo bem, milady? No entrou debaixo das cobertas quando voltou 
ontem  noite!
Jeannie a fitava interrogativamente, e, s ento, Nataly deu-se conta de 
que estava deitada sobre a cama, ainda usando o neglig.
As lembranas da noite anterior voltaram como uma grande
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e ameaadora onda, mas cessaram no instante em que o conde enterrara os 
dedos em seus ombros.
Depois disso, apenas o vazio.
Devia ter sido carregada por ele at ali, quando desmaiara de dor. Como
a criada continuasse esperando por alguma explicao, respondeu:
-  que eu estava cansada quando voltei e sentia calor.
- Oh, srta. Lindsay, sinto muito por t-la acordado quela hora, mas eu 
no saberia fazer um curativo to bom quanto o seu!
A moa colocou a bacia de gua quente sobre a mesinha e cobriu-a com a
toalhinha de linho para manter o calor.
- No precisa se apressar para levantar, depois dessa noite perturbada, 
milady. Deixe que vestirei a condessinha.
- Obrigada, Jeannie.
A criada retirou-se e Nataly rememorou os acontecimentos da noite 
anterior, indignada com as acusaes injustas que o conde lhe fizera.
- Como pde. como teve coragem de me chamar de prostituta? - perguntou 
baixinho, horrorizada.
Sentou-se na cama, num choque sbito. Lembrou-se de que havia sido 
mandada embora do Castelo Rothwell. Sim, fora enxotada como uma mulher 
vulgar, no tivera chance de se defender!
E agora, para onde iria? Sem dinheiro, sem fazer ideia de onde seus 
parentes viviam.
Tentou ficar de p, mas suas pernas estavam bambas e fracas. No 
conseguia discernir o que era pior: se a lembrana do horror que sofrera 
na noite anterior, ou a triste realidade que precisaria enfrentar a 
partir daquele dia.
Pensou em pedir ajuda a sir Christopher, mas logo desistiu.
"Se eu for ter com ele, mais uma razo para o conde me
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considerar imoral e indecente. Oh, como pde imaginar uma coisa dessas? "
Apesar da indignao, de certo modo chegava a compreender a posio do 
conde. Tinha de admitir que, por uma srie de circunstncias, o nobre 
tirara concluses erradas, que no eram desprovidas de razo, sob seu 
ponto de vista.
Afinal, ela surgira ali repentinamente, cada do cu, carregando consigo 
sua filha e um guarda-roupa nada convencional.
Por outro lado, ele estava certo de que a "falsa" governanta planejava 
seduzi-lo e pde observar que, realmente, Nataly monopolizara as atenes
de sir Christopher durante a noite anterior. Depois, a encontrara por
acaso, usando apenas um neglig transparente, no mesmo andar em que o 
amigo ficara hospedado.
- Que situao mais degradante e embaraosa! - gemeu, sentindo-se 
impotente para tentar dar qualquer explicao ao ex-patro.
"Agora, ele me odeia mais do que nunca. Mas chega de pensar! Preciso ir 
tomar o caf da manh com Felicity."
Vestiu-se com dificuldade, sabendo que aquele seria seu ltimo dia no 
castelo.
- Parece esgotada, milady! - comentou Jeannie durante o caf. - Por que 
no se deita um pouco, enquanto cuido da condessinha?
- Voc poderia providenciar que ela saia a cavalo com Jeb esta manh? 
Tenho de fazer algumas coisas e...
- Sim, senhorita. Mandarei um criado falar com ele nos estbulos.
- Quero cavalgar com voc, srta. Lindsay - exclamou Felicity, deixando o 
sanduche no prato. -  muito mais divertido.
- Sinto muito, querida, mas estou com uma terrvel dor de cabea. Quem 
sabe  tarde poderemos sair juntas?
- timo! Mas. no terei aulas?
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- Hoje no.
"E nunca mais comigo", pensou, sentindo as lgrimas lhe aflorarem aos 
olhos.
Dali a pouco, Felicity e Jeannie desciam a escada, enquanto ela entrava
no quarto, sentindo o corao apertado. Deteve-se a olhar o armrio
repleto de vestidos, imaginando o que faria para carregar consigo tudo 
aquilo.
Deus, precisaria reunir toda sua coragem e ser prtica!
Tirou a bolsa da gaveta e jogou sobre a cama todo o dinheiro que possua: 
pouco mais de trs libras. Olhou para as notas com desespero. com aquela 
quantia, no chegaria muito longe dali. E onde arrumaria emprego?
As questes se repetiam incessantemente e, no auge do desespero, pela 
primeira vez desde Tangier, ela desejou que a facada que recebera dos 
assaltantes tivesse sido fatal.
Abriu um armrio e tirou o menor de todos os bas. Levaria consigo nada 
mais que o necessrio. Mas, o que lhe seria "necessrio" dali em diante?
No conseguiu conter as lgrimas, que rolaram livremente pelas suas 
faces. Deixou-se ficar ali por alguns segundos, entregue  dor e  
impotncia, sem conseguir raciocinar com clareza.
Escutou a porta de seu quarto se abrir, mas no se virou, esperando que 
Jeannie se retirasse discretamente. No entanto, uma voz grave e profunda 
perguntou:
- O que voc est fazendo?
Pensou que estivesse sonhando. Ao virar-se e erguer os olhos, viu o conde 
fechar a porta com cuidado, antes de aproximar-se e inclinar-se sobre 
ela, que permanecia ao lado do ba.
- Por que est chorando?
- Eu... eu... v... vou embora - respondeu, procurando um leno no bolso 
da saia.
Ele tirou um fino leno bordado do bolso do casaco, e entregou-o a ela. 
Esperou que Nataly limpasse o rosto e disse:
- Vim lhe pedir desculpas.
110
Ela arregalou os olhos. Aquilo era a ltima coisa que esperava ouvir!
- Soube, por Elizabeth Wick, o que voc fez por ela ontem  noite. Ficou-
lhe muito grata, e faz questo de v-la antes de ir embora.
- Oh. sim, claro.
- No h perdo pela maneira como me comportei... exceto porque estava
morto de cimes!
- Co... como? N... no compreendo.
- Voc me fez passar por um milho de sofrimentos diferentes desde que
chegou aqui e, ontem  noite, ao pensar que tivesse estado com Hogarth,
fiquei louco. No pude mais suportar!
- Mas... no entendo!
- Nem eu.
O conde sorriu inesperadamente, respirando fundo.
- Reconheo que deveria ter lhe perguntado h muito mais tempo sobre voc 
e sua vida, porque se parece com uma mulher recm-sada de um conto de 
fadas, e no uma governanta. Calei-me, pois voc me assustou desde o 
primeiro instante!
- Eu? Assustar?
Nataly no podia crer no que estava acontecendo. Depois do pesadelo da 
noite anterior, de todo o horror e angstia por que passara, parecia 
entrar num sonho, que enchia seu corao de calor, fazendo-o bater de uma 
maneira muito especial.
- Se estiver aqui, como a acusei, trabalhando a mando de minha mulher, a 
fim de incriminar-me para que ela possa, enfim, obter o divrcio, j no 
me importa mais. Quem quer que seja e o que quer que esteja fazendo no 
castelo, sei que no posso mais escapar de voc.
- O que... o que est dizendo?
- Estou dizendo que, de uma maneira completamente incompreensvel, 
apaixonei-me por voc!
- No. no pode ser verdade!
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-  verdade! - replicou ele, enftico. - E  o que justifica o modo como 
a tratei e as coisas que lhe disse.
O conde sorriu, desta vez, de maneira mais encantadora e acrescentou:
- Agora, volto  pergunta original: voc me perdoa? Trmula, Nataly se
levantou devagar. Encarou-o, a boca
semi-aberta de surpresa.
- Acho que no estou ouvindo. o que voc est dizendo. Deve ser um
sonho. No pode ser realidade.
-  muito real! To real que nada mais interessa, exceto que voc est 
aqui. E, se acha que a deixarei partir, est completamente enganada!
- Voc disse. disse que eu devia ir embora.
- S porque no suportava mais ser torturado! Pode imaginar o que senti 
quando a vi passando pelo corredor quela hora? Pensei
- Como pde?
- Repeti essa pergunta a mim mesmo, ao saber da verdade. Oua, minha
querida, estive tentando odi-la e desprez-la desde o primeiro instante 
em que a vi, mas  impossvel!
Ela ouvia tudo como num sonho, tentando compreender exatamente o que o 
conde dizia. Num tom de voz diferente, ele continuou:
- Ajude-me a entender, diga-me por que exatamente veio para c com 
Felicity.
- Quis. quis lhe contar tudo ontem  noite, mas voc. no me deixou!
- Sei disso. Quando a trouxe para c depois, e vi o ferimento em seu 
ombro, compreendi que no estava representando. Na realidade, era mesmo 
pura, meiga e linda como parecia! Confie em mim, querida. Conte-me a 
verdade. Seja ela qual for, no me impedir de continuar a amar voc!
Ela sentiu a mo forte e morena sobre seu ombro, e fitou-o longamente, 
compreendendo, naquele momento, que lhe pertencia,
112
que fazia parte dele. Amava-o! Amava-o do fundo do corao e via,
naqueles olhos escuros, que o sentimento era recproco!
O conde ps os braos em torno da cinturinha frgil, como se temesse 
mago-la, e puxou-a com cuidado e ternura de encontro a si.
- No h necessidade de dizer nada. Eu a amo demais, minha querida. Voc 
me pertence, nada mais importa!
Devagar, bem devagar, ele foi se inclinando, abaixando a cabea, at seus 
lbios se encontrarem num beijo.
Beijou-a com uma leveza e carinho to imensos que Nataly sentia o corao 
bater descompassado de felicidade. Isso era o amor! O amor verdadeiro que 
seus pais haviam vivido, o nico tesouro de valor existente no mundo.
O conde estreitou-a nos braos, e seus lbios se tornaram cada vez mais 
possessivos, mais insistentes, sem, no entanto, perderem a doura, a 
maciez. Tudo lhe parecia to maravilhoso, que ela no pde conter as 
lgrimas quentes, que lhe rolaram pela face.
Ele ergueu a cabea, com os olhos cheios de amor e compreenso.
- No chore, minha querida. Est tudo bem, agora.
-  que pensei que precisava ir embora. para sempre!
- Oh, no, meu amor, isto jamais acontecer! Estava louco ontem  noite 
quando lhe disse para ir embora. Na verdade, nunca conseguirei viver sem 
voc!
De repente, ele ficou rgido, uma sombra de tristeza no olhar.
- Por mais que eu a ame, minha princesa, no posso pedi-la em casamento. 
Mas darei a Nadine o divrcio que ela deseja.
- Mas voc no acredita que eu tenha vindo para c com intenes to... 
to vis e baixas, no ?
- Por que voc veio?
- Oh,  menos complicado do que esteve imaginando! A
113
condessa perguntou a padre Ignatius, chefe da Misso onde eu estava, se
ele conhecia uma moa inglesa que pudesse trazer Felicity de volta a seu
pas.
Observando que o conde a ouvia atentamente, apesar de continuar a abra-
la, prosseguiu:
- Eu tinha estado muito doente. Fora trazida inconsciente para a Misso,
depois que salteadores do deserto haviam matado papai, dizimado nossa
caravana e me esfaqueado.
- Ento, foi assim que ganhou aquela cicatriz! Voc desmaiou quando a
toquei.
- A ferida ainda est dolorida. Bem, padre Ignatius levou-me para a
villa, onde a me de Felicity vivia. No dia seguinte, estvamos a caminho 
da Inglaterra.
- Mas por que minha mulher resolveu me mandar a menina de volta?
- A condessa estava muito doente, e a criana perturbava seu 
relacionamento com o conde de Soisson. Alm disso, Felicity no. no era
feliz ali.
- E voc concordou em traz-la no mesmo instante?
- Sim, claro. Era minha nica chance de obter a viagem paga! No tinha 
para onde ir, estava sem dinheiro. Pensei em sair  procura de meus 
parentes, depois de deixar Felicity aqui.
- Ela olhou para a cama, indicando as notas espalhadas.
- No entanto, quando chegamos, s me restava aquilo!
O conde riu, abraando-a e beijando-a docemente nas faces.
- E imaginava, minha querida, que poderia fugir de mim com essa grande 
quantia?
- Eu estava assustada!
- Prometo-lhe que nunca mais ficar, meu amor. Agora compreendo tudo e 
peo-lhe que me perdoe por ter imaginado outras coisas, quando a vi to 
bela e elegante batendo  minha porta! Posso adivinhar que todas suas
roupas foram presentes de minha mulher.
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- Sim... Os assaltantes levaram tudo que eu e papai ps suamos.
- Oh, meu amor.
O conde tornou a beij-la de maneira apaixonada, e depois perguntou:
- Quantos homens j a beijaram no passado?
- Nenhum. E nunca, nunca havia encontrado um homem como voc.
- Pois, de hoje em diante, farei com que nunca se encontre com ningum
parecido! Agora me diga sobre o que conversava to animadamente com
Christopher ontem  noite?
- Oh, ele conhecia papai - Nataly riu, deliciada. - Leu seu livro e 
admirava os artigos que meu pai escrevia para a Revista Geogrfica Real 
e.
- O qu! Est me dizendo que seu pai  Gordon Lindsay?
- Ento, voc tambm j ouviu falar dele!
- No s ouvi falar, como tambm sou o presidente da Sociedade Geogrfica 
Real e leio todas as revistas! Sempre achei os artigos dele
interessantssimos!
- Como eu poderia supor que conhecesse papai?
- O que ele escrevia era sempre muito excitante, mas, sem dvida, prefiro
a filha!
O conde estreitou-a com mais fora nos braos, sufocando-a de beijos, at 
deix-la flutuando num mundo de sonhos, com a sensao de que o quarto 
estava girando, girando sem parar, como se apenas existisse o fogo da 
paixo que os consumia.
- Eu o amo. eu o amo! - disse ela, os olhos transbordantes de felicidade.
- E eu a amo tambm, minha querida. Sinto tanto que ainda haja algumas 
complicaes para que se torne minha esposa. Mas nada, nem ningum, 
deter nosso casamento, apesar de o divrcio ser um processo muito 
demorado e gerar um escndalo desagradvel. Isso no importa mais, meu 
amor!
115
Como que confirmando o que acabara de dizer, ele beijou-a novamente, com 
paixo e desejo. Sentiam-se transportados para um paraso, onde apenas 
existia o amor, ao mesmo tempo estavam imbudos da certeza de que, 
juntos, venceriam todas as barreiras que ainda pudessem vir.
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CAPITULO VII
Durante todo o tempo que ficou com Felicity, almoando e, em seguida,
mostrando-lhe um livro de ilustraes, Nataly contava cada minuto,
ansiando pelo reencontro com o conde.
O livro tratava da vida na frica, e logo notou que poderia falar sobre o 
assunto com suas prprias palavras. Assim contou histrias do deserto, de 
bedunos e das estranhas cidades como Fez e Marrakesh, que continuavam 
inalteradas atravs dos sculos.
Mais tarde, subiram para o primeiro andar, tomaram ch, e s cinco horas 
Jeannie apareceu, conforme o combinado.
- Aqui estou, milady, e, como imaginei que a condessinha quisesse brincar 
com as casinhas de brinquedo, o chefe preparou pratos minsculos, 
especiais para a refeio das bonecas.
Nataly saiu e desceu para o hall, enquanto Felicity se distraa, 
encantada com os pratinhos. Havia marcado um encontro com o conde em seu 
escritrio e, ignorando Dawson, ela mesma abriu a porta da sala.
117
Ele a esperava de p, ao lado da lareira, e quando seus olhares se
cruzaram nenhum dos dois conseguiu se mover. Logo, ela correu e caiu nos
braos abertos de Marlon, seus corpos vibrando de felicidade, como se 
pulsassem ao mesmo ritmo.
Ficaram abraados por algum tempo, um sentindo o outro, em silncio. O 
conde se afastou um pouco e disse, srio:
- Antes de eu lhe contar o quanto a amo, minha princesa, precisamos 
conversar. Vamos nos sentar no sof.
Ele a pegou pela mo e fitou-a intensamente.
- Foi nesta sala que a encontrei pela primeira vez. Vendo-a to bela,
logo a considerei um perigo. Lutei no s contra voc, mas tambm contra
meu instinto e minhas emoes.
- Sim, agora compreendo, querido. Mas voc me assustou bastante!
- Nunca mais a assustarei, meu amor! Procure compreender que, como voc, 
eu tambm estava atemorizado! Depois de tudo por que eu havia passado, 
jurara a mim mesmo que jamais voltaria a me apaixonar por nenhuma outra 
mulher.
Nataly sentiu uma pontada de cimes, ao pensar que o primeiro amor do 
conde fora Nadine, e baixou os olhos. Ele sorriu carinhosamente e 
continuou:
- Sim, fui apaixonado por Nadine. Entretanto, o sentimento que eu nutria 
por ela, no se compara nem de longe ao que sinto por voc. Julguei que a 
amasse, pois era muito bonita e gentil, e seus pais tinham me dito que 
ela queria casar-se comigo. Ela mesma confirmou... - deu um suspiro
pesado, fazendo uma pausa. - Infelizmente, ela no me disse a verdade.
Quando nos casamos, estava perdidamente apaixonada pelo conde de Soisson!
- Mas, ento, por que no se casou com ele?
Ele j era comprometido h muitos anos, pois os franceses se casam cedo. 
Fora uma unio arranjada pelas famlias, e a esposa do conde tambm 
descendia da nobreza.
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- E voc no sabia?
- No. Sequer desconfiei que Nadine o conhecia, at o dia em que, durante 
uma festa, o encontramos em Londres.
O conde dirigiu o olhar para o teto, e continuou, num tom amargo:
- Fui muito cego, ou talvez inexperiente, para no ver que, perto dele, 
minha esposa se transformava. Ficava mais alegre, seus olhos brilhavam.
- Deve t-lo machucado muito.
- Nessa poca ela j esperava um filho, e eu, sem saber ao certo o que 
acontecia, interroguei-a. Depois de muitas mentiras e desvios, confessou 
que o amava desde os dezessete anos, quando o conhecera.
- Meu Deus!
- Logo depois que Felicity nasceu, descobri que estavam se correspondendo 
secretamente, e que se encontravam toda vez que ele vinha a Londres.
- E o que voc fez?
- Ameacei-o, o que o fez fugir por uns tempos. Nadine, no entanto, deixou 
claro que ainda o amava, e quase no nos vamos, embora morssemos sob o 
mesmo teto.
- Deve ter sido uma situao muito difcil.
- Eu j no a amava mais e isso no me importava. Mas ela era minha 
esposa, e no poderamos causar um escndalo que manchasse o nome e a 
honra da famlia. Por isso, me distanciei de tudo e de todos. Tornei-me 
cnico e desacreditado da vida. Dizia a mim mesmo que todas as mulheres 
eram promscuas e mentirosas.
Nataly estremeceu, mas foi confortada por um terno beijo na mo.
- Tudo isso j passou, minha querida. Sei que voc  pura e linda, 
exatamente como a pessoa que eu sempre sonhei amar.
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Mas preciso continuar a histria, para que compreenda melhor meu 
comportamento.
- Sim, meu amor.
- Quatro anos atrs, soube que o conde de Soisson se encontrava na 
Inglaterra e descobri, embora no pudesse prov-lo, que Nadine e ele eram 
amantes. Tivemos muitas brigas, discusses horrveis, e um dia, enquanto 
eu caava, ela simplesmente desapareceu com Felicity.
- E voc... o que fez?
- Quando soube que elas tinham ido para Paris, no fiz nada.
- Nada?
- No incio, disse a todos que ela partira de frias com a criana, mas 
depois, conforme o tempo foi passando, recuseime a dar explicaes. Que 
cada um pensasse o que bem entendesse!
- E voc no teve mais notcias dela?
- Nunca mais; porm, dez meses atrs, recebi uma carta de alguns 
advogados franceses, pedindo que eu me divorciasse de Nadine, pois a 
condessa de Soisson falecera.
- Mas no lhe deu o divrcio.
- Por que o faria? Causaria um escndalo para mim, seria publicado nos 
jornais. Recusei categoricamente, tomando a deciso de nunca mais voltar 
a me casar. at que eu a vi, meu amor. Acabei de escrever o rascunho de 
uma carta que pretendo enviar a meus advogados, para que eles se 
comuniquem com Nadine e a avisem de que devemos apressar nossa separao.
O conde soltou a mo delicada e abraou-a pelos ombros, os olhos 
transbordantes de carinho e desejo.
- Ento, minha querida, terei o prazer e a honra de pedi-la em casamento.
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-  o que de mais maravilhoso poderia me acontecer, meu amor! Tornar-me 
sua esposa!
- Juro que a farei feliz, minha querida! Antes disso, porm, ter de sair 
do castelo.
- Sair? Mas, por qu?
- Minha querida, sei que ser duro para ns dois. No entanto, na 
Inglaterra existe um rgo oficial, o procurador da rainha, que exige, da 
parte de quem pede o divrcio, uma vida reclusa e incensurvel por, no 
mnimo, seis meses.
- Seis meses!
O conde sorriu ante o desapontamento espontneo da futura esposa.
- Sim, querida. Ser difcil, mas depois teremos a vida toda pela frente!
- No posso perd-lo agora! No suporto a ideia de ficar s esse tempo 
todo!
- E voc acha que, ficando sob o mesmo teto, saberei me conter? Todos os 
empregados sabero que a amo desesperadamente, e ento no poderemos nos
casar!
- E se voc mudar de ideia durante esses meses?
- Isso jamais acontecer. Eu a amo e a adoro. Sei que fomos feitos um 
para o outro, e nada nem ningum nos separar.
O conde tomou-a nos braos e beijou-a com paixo. Mais uma vez, Nataly 
sentiu uma onda de felicidade envolv-la. No havia nada a temer, pois um 
pertencia ao outro, de corpo e alma.
- Eu o amo. eu o amo, meu querido.
Trocaram mais beijos, cheios de calor e desejo, e ela sentia-se
transportada s estrelas, para um mundo de sonhos, onde experimentava
sensaes novas e surpreendentes.
Depois, o conde falou, com voz profunda:
- Tenho uma tia que mora a oito quilmetros daqui.  uma viva muito 
bondosa, gentil, e receber voc e Felicity de braos
121
abertos. Ser uma forma de no ficarmos muito longe um do outro, querida.
- E eu... poderei. v-lo?
- Pode ter certeza disso. Irei visit-la sempre que puder. Teremos de 
suportar essa provao por alguns meses, mas depois seremos 
recompensados.
- E quando Felicity e eu nos mudamos?
- Tudo ser arranjado para amanh, e titia as receber depois de amanh. 
Isso nos d duas noites e um dia, meu amor. Vir jantar comigo hoje?
- Posso faz-lo?
- Bem, como ningum sabe de nossos planos. Talvez os criados estranhem o
 fato de a governanta descer para a sala de jantar; no entanto, estou
certo de que, caso sejam interrogados na corte, permanecero leais a ns. 
Alm disso, no estamos a ss no castelo, minha av mora conosco.
- Vai contar a ela sobre ns?
- Talvez nem seja necessrio. Apostaria muitas libras em que ela j sabe 
de tudo!
- Oh! Mas.
- No precisa se preocupar com vov. Ela ficar to deliciada por eu me 
casar de novo que receber bem qualquer mulher, especialmente voc, minha 
querida.
- Por qu?
- Ela a admira, embora desconfie que voc no  governanta. Quando souber 
sobre seu pai, ficar muito impressionada!
- A senhora condessa tambm j ouviu falar de papai?
- Por que a surpresa? Eu  que fico atnito por vov no ter descoberto 
isso antes! Ela j visitou o norte da frica diversas vezes com vov, que 
era um viajante inveterado.
- Isso  extraordinrio! Papai pensava que seus livros eram lidos apenas 
por velhos professores de Universidades e por-alguns
122
poucos jovens que se especializavam no assunto. E agora, quando
menos espero, descubro que no s voc e sir Christopher apreciavam tais 
leituras, mas tambm a velha condessa de Rothwell!
- E qual desses  o mais importante?
- Voc,  claro! Fico to emocionada e orgulhosa em saber que voc lia e 
apreciava o trabalho dele.
- Providenciarei para que os livros de seu pai sejam mais divulgados e 
comentados. Na prxima vez que for a Londres visitarei sua editora e os 
convencerei a relanarem seus trabalhos, apoiados em larga propaganda da 
Revista Geogrfica Real!
-  o presente mais maravilhoso que eu podia ganhar. O conde no 
respondeu, beijando-a novamente.
Nataly percebeu que o tempo voara enquanto tinham estado juntos, e que 
devia subir para despedir-se de Felicity. Levantou-se com relutncia.
- Devo mesmo jantar com voc esta noite?
- No pretendo me sentar na sala de jantar sozinho. Alm disso, minha 
princesa, h muitas coisas que quero lhe dizer, embora no somente com 
palavras.
Marlon fez um movimento para beij-la, mas Nataly, preocupada com a hora, 
apenas lhe sorriu e saiu.
Conforme subia a escada, rezava baixinho em agradecimento pela felicidade 
que encontrara de maneira to surpreendente, num momento em que no 
esperava nada mais, alm de angstia e misria.
- Srta. Lindsay, voc voltou! - disse Felicity, que j havia jantado e 
estava vestida para se deitar. - Tenho tanto para lhe contar, Jeannie e 
eu fizemos um banquete com as bonecas. Elas comeram tanto que vo ficar 
com dor de barriga!
- Espero que o mesmo no acontea com voc.
- Claro que no! No posso ficar doente, porque voc prometeu
123
que amanh apostaramos uma corrida de cavalo! Perguntou ao papai
se ele tambm vai conosco?
- Tenho certeza de que ir.
- Que bom! Adoro papai quando ele anda a cavalo comigo. Depois que essas
pessoas bobas forem embora, vamos passear todos os dias!
Nataly sentiu um aperto no corao ao pensar que logo mais ela e Felicity 
se mudariam para uma casa estranha, e que o conde no as acompanharia. 
Mas no devia estragar a noite pensando nisso; ouviu Felicity fazer suas 
preces e deu-lhe um beijo de boa-noite.
Jeannie j lhe preparara a banheira com gua quente e sais perfumados, e 
depois do banho tiveram uma longa discusso at escolher o vestido mais 
adequado para ela usar no jantar.
Ao contrrio do que esperava, a criada no se surpreendera pelo fato de a 
governanta acompanhar o patro  mesa.
- Ns sempre comentvamos que a senhorita deveria comer l embaixo todos 
os dias. Todas achamos que era a moa mais bonita da festa em homenagem 
ao prncipe de Gales!
- Obrigada, Jeannie.
Ainda discutiram mais um pouco e, finalmente, se decidiram por um vestido 
branco e prateado, que a deixava com um aspecto jovem e bonito.
Depois de pronta, ela se mirou no espelho por um instante. Seus olhos 
estavam brilhantes de excitao e as faces, afogueadas.
O conde estava sendo inteligente em mand-la juntamente com a filha para 
outra casa. Era impossvel esconder que estava irremediavelmente 
apaixonada.
- Est linda, milady. Uma verdadeira princesa! Oh, quase ia me 
esquecendo, h uma carta para a senhorita sobre a lareira.
- Uma carta?
- Sim, chegou hoje  tarde. Coloquei-a ali para a senhorita v-la quando 
voltasse. Tem um selo estrangeiro, no sei de onde.
124
Nataly pegou a carta e, constatando que era de Tangier, quase deixou de 
abri-la, temendo receber ms notcias da condessa. Haveria ela se 
arrependido de ter mandado a filha de volta  Inglaterra?
Entretanto, no conseguiria jantar em paz com Marlon, se no a lesse. De 
qualquer forma, as notcias deviam ser importantes para o futuro deles!
Havia apenas uma folha escrita, e, ao bater os olhos na assinatura, viu 
que a carta era do padre Ignatius.
"Minha querida Nataly.
Rezo a Deus para que tenha chegado s e salva ao final de sua jornada e 
que agora esteja bem instalada no castelo Rothwell, juntamente com a 
filha do conde, que deve ter ficado feliz em t-la de volta.
Escrevo para lhe dar a notcia melanclica do falecimento da condessa. 
Ela se foi ontem, e o enterro ser amanh, aqui na cidade.
Como os mdicos suspeitavam, tinha os pulmes infeccionados e no houve 
chances de escapar dessa tuberculose que tira a vida de tantos ns, e 
para a qual no existe cura.
Espero que passe as notcias a Felicity da maneira mais gentil possvel. 
Graas ao bom Deus ela est agora com o pai, que a proteger e lhe dar 
uma vida mais feliz.
Escreva-me quando tiver tempo. Rezo por voc diariamente, querida, e sei 
que Deus cuida de seus passos.
Seu em Jesus Cristo, Padre Ignatius."
Nataly leu e releu a carta, mal acreditando no que estava escrito. Em 
seguida, guardou-a no envelope e desceu a escada com um s pensamento: 
Deus cuidara mesmo de seus passos, pois j encontrara a felicidade.
125
- Acho que est na hora de partirmos, querida - disse o conde, olhando-a 
carinhosamente.
- Sim, Marlon.
Quase no podia acreditar que tornara-se a esposa daquele homem 
fascinante e que, naquele momento, partiam em lua-demel para tomar um 
trem at Londres.
A cerimnia fora muito simples, numa capelinha do parque, com uma 
excitada Felicity de dama de honra.
A velha condessa ficara felicssima ao saber das novidades.
- Certamente, voc  repleta de surpresas, minha criana
- dissera ela a Nataly. - Eu sempre estive convencida de que no era uma
governanta, como pretendia... E quero que saiba que estou ficando viva
apenas para ver o filho de Marlon correndo pelo castelo!
- Espero que ele se divirta com voc tanto quanto eu! respondera o conde.
- Ora, no esperava receber elogios depois de velha! Todos riram e, 
depois de ter beijado o neto e Nataly, a condessa acrescentara:
- Vo embora e se divirtam. Tomarei conta do castelo at vocs voltarem.
- E eu tomarei conta de voc, vov - replicara Felicity, solenemente. - E 
dos cavalos, tambm.
Emocionado, o conde tomara a filha nos braos e a beijara com ternura.
Era a primeira vez que isso acontecia, e os olhos de Nataly se encheram 
de lgrimas. Estava certa ao pensar que tudo o que o castelo precisava 
era de um pouco de amor! Agora havia harmonia, paz e felicidade reinando 
na casa, e at os empregados pareciam mais felizes!
A criadagem os acompanhara at o ptio para despedir-se, de lenos na 
mo, gritando alegremente, enquanto a carruagem se afastava em direo 
estao.
126
O conde abraou-a com fora, permitindo que ela se aninhasse em seus 
ombros.
- Gostou do casamento, minha princesa? Para mim, foi uma cerimnia 
perfeita. A capelinha estava cheia de amor...
- Para mim, tambm, meu amor.
- E assim ser para sempre!
Naquela noite, depois de ter aberto as cortinas da cabine do trem, de 
modo a, juntos na larga cama do vago-sute, poderem observar a paisagem 
noturna e o cu estrelado, Marlon perguntou:
- Diga-me se eu a fao feliz.
- To feliz que ainda, ainda estou voando no cu. O que voc me fez
sentir foi to maravilhoso, to perfeito, que nem tenho palavras para 
expressar... nem mesmo em francs, ou em rabe.
- Deus, certamente, nos mostra caminhos misteriosos! Como eu poderia 
esperar que algum como voc entrasse em minha vida e me trouxesse a
felicidade que eu julgava no existir?
- Oh, como eu te amo, Marlon! Naquela noite em que o prncipe foi jantar 
no castelo, dentre todas as pessoas  mesa, voc era quem mais parecia 
pertencer  realeza!
- Que elogio! Mas eu tambm sempre soube que, apesar de ter virado minha 
vida de cabea para baixo, voc era a rainha do meu corao.
- Agora  voc quem est me elogiando! Nunca tive inteno de ser rainha. 
S desejei ocupar o posto mais importante deste mundo: o de sua esposa!
Seus lbios se roaram em sussurros sensuais e doces, que aos poucos 
foram se transformando num beijo longo e apaixonado, que acendia um fogo 
irreprimvel dentro de cada um.
Era como se eles formassem um nico ser. O conde a ensinara a conhecer 
prazeres e sensaes at ento desconhecidos, de modo a tambm ela ir 
descobrindo como despert-lo e agrad-lo.
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 O fogo dos lbios foi se intensificando at se sentirem transportados
ao cu, num xtase indescritvel, no extremo auge do amor.
- Voc  minha! Minha, meu amor, por toda eternidade.
- Sim, Marlon, sou sua... Ame-me. Ame-me muito! Tudo pertencia a eles: o 
cu, as estrelas, a felicidade e a perfeio do verdadeiro amor.
128

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou 
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. 
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que 
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides 
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das 
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de 
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e 
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do 
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo 
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de 
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
